Algumas lições do Golfo do México
Temos que tomar cuidados com o nosso “pré-sal”
Este post merece um comentário. Sabe-se que a “corporatocracia” mundial promove, segundo suas necessidades oligárquicas, catástrofes, crises, revoluções/guerras e até mesmo cataclismas, com o intuito de, depois, usufruir benefícios de toda sorte, convertidos em milhões de dólares, com sua intervenção “salvadora”, sempre com a máscara de ajuda humanitária, de preservação ambiental, de “reconstrução”, e/ou de “restabelecimento” da democracia e promoção do desenvolvimento – junto aos povos/países atingidos por sua fatídica “falta de sorte”. As ações maléficas dessas corporações não poupam sequer vidas humanas – e isso pode-se contar aos milhões – quando determinada situação lhes é desfavorável. Se não ligam a mínima para os seres humanos, jamais se importarão também com o meio ambiente, bichos e plantas.
As guerras são pelo petróleo
Sabe-se, por outro lado, que a maioria esmagadora das guerras (para não dizer: todas) e conflitos de todo o século 20, até hoje, se deu no mundo por causa do petróleo. Ou pelo petróleo em si, no que diz respeito à localização de suas jazidas (as conhecidas e as prováveis ou previsíveis), como também pelo acesso às mesmas, ou seja, pela utilização de oledutos/gasodutos passando por países nem sempre favoráveis e dispostos a abdicar de suas soberanias para facilitar a vida das elites petrolíferas. Vide hoje o caso do Iraque.
O maior pânico das elites petrolíferas mundiais é perder a hegemonia operacional e comercial – e, portanto, o controle – sobre as grandes jazidas de petróleo, estejam elas onde estiverem. Vide hoje a aspereza de relações entre a Venezuela e os EUA.
Estão de olho no nosso “pré-sal”
Hoje, o Brasil descobriu as imensas reservas marítimas do chamado “pré-sal”. São reservas realmente muito grandes, que, a cada dia aumentam mais devido a novas prospecções, e que, certamente, colocarão o Brasil entre os primeiros maiores produtores de petróleo do mundo. Isso não deverá estar agradando às grandes oligarquias petrolíferas do Primeiro Mundo e, certamente, essas oligarquias já devem estar pensando em, pelo menos, inibir ou dificultar muito, de alguma forma, o avanço do Brasil na área do petróleo – já que, em princípio, a utilização de recursos militares (por exemplo) com o intuito de inibir e amedrontar o Brasil, dificilmente poderão ser empregados no nosso caso. Mas isso também não é impossível.
Usar a “catástrofe” como exemplo
Mas uma grande catástrofe ambiental de causas petrolíferas, decorrente da exploração aquática – em mar aberto, principalmente – pode servir de pretexto para que sejam interrompidas e proibidas, mundialmente, doravante, qualquer iniciativa de se explorar jazidas em mar alto, ou em baías etc (como faz a Venezuela, no Golfo de Maracaibo)…
Não estou, com isso, dizendo que a catástrofe do Golfo do México tenha sido produzida propositalmente. Aqui mesmo no Brasil já tivemos acidentes grandes com plataformas marítimas, mas sem maiores prejuízos no que diz respeito a vazamentos de óleo como o que ocorreu no Golfo do México. O vazamento de óleo na plataforma da BP (British Petroleum), no entanto, me pareceu excessivo e fatídico demais.
Assim, sob o pretexto de que a tecnologia de exploração petrolífera aquática ainda não possui elementos técnicos que garantam uma exploração limpa e segura – neste caso, segura para o meio ambiente marítimo – esse tipo de exploração poderá ser, facilmente, proibida em todo o mundo. Sabe-se, por exemplo, que, no presente momento, uma série de poços petrolíferos localizados no mar, no Hemisfério Norte, já tiveram suas atividades interrompidas devido aos “riscos” que poderão estar causando ao meio ambiente…
Quem é a BP
O acidente com a plataforma petrolífera da BP e suas consequências no que diz respeito aos prejuízos financeiros que a empresa teve e que terá com a limpeza da região, bem como com a interrupção dos vazamentos de óleo, não são nada, para uma corporação como a British Petroleum (oriunda da fragmentação da Standard Oil, controlada pela oligarquia dos Rockefeller).
A BP, originalmente Anglo-Persian Oil Company e depois British Petroleum, é uma empresa multinacional sediada no Reino Unido que opera no setor de energia, sobretudo de petróleo e gás. Fez parte do cartel conhecido como Sete Irmãs, formado pelas maiores empresas exploradoras, refinadoras e distribuidoras de petróleo e gás do planeta, as quais, após fusões e incorporações, reduziram-se a quatro – ExxonMobil, Chevron, Shell, além da própria BP.[Wikipedia]
Mas os prejuízos serão considerados muito pequenos, se ela conseguir, com esse exemplo, dificultar ou impedir explorações petrolíferas marítimas em outros países fora dos tentáculos controladores da oligarquia petrolífera mundial, da qual a BP é, sem dúvida, uma das mais importantes a representar.
Sanções poderão ser aplicadas, portanto (inclusive com intervenções militares), aos países que tentarem burlar a fiscalização internacional – que será criada para isso – ou para os que insistirem nesse tipo de exploração.
As explorações marítimas continuarão a ser permitidas?
Exigências draconianas serão implementadas junto aos estudos de impactos ambientais, que são obrigatórios em qualquer tipo de projeto de desenvolvimento, em todos os países, mormente nos do Terceiro Mundo, exigências essas que, praticamente inviabilizarão os futuros projetos e até poderão interromper os já em andamento. E disso, nós, brasileiros, sabemos muito bem, em decorrência das exigências críticas que são feitas aqui no Brasil contra nossos projetos de infraestrutura – até mesmo para o recapeamento de rodovias.
Isso tudo sem se falar nas audiências públicas para se debater – junto a eventuais populações que venham, de alguma forma, a ser, ou a poder ser, atingidas, sob algum aspecto, em decorrência dos atuais e futuros projetos petrolíferos – ou seja, os projetos e suas eventuais consequências e “perigos” socioambientais. Se os projetos “escaparem” dos estudos de impactos ambientais, dificilmente escaparão das audiências públicas, pois sabe-se que essas populações são completamente manipuladas pelas ONGs ambientalistas e de direitos humanos, internacionais e nacionais (estas, em grande parte, mantidas financeiramente pelas primeiras).
Assim, concluindo, não vejo com bons olhos a catástrofe ambiental do Golfo do México, não só pela catástrofe em si, evidentemente, mas por suas consequências geopolíticas. Não duvido que, daqui a pouco tempo, surjam, a nível planetário, sérias restrições – e sanções – no que diz respeito à exploração petrolífera marítima. E isso afetará, drasticamente, o Brasil. A não ser que, de alguma forma, as oligarquias petrolíferas mundiais ponham as mãos no nosso “pré-sal”, nas jazidas de Campos etc etc etc…![]()
Algumas lições do Golfo do México
Embora ainda seja cedo para uma avaliação plena das suas causas e, principalmente, dos seus desdobramentos, o desastre da plataforma da British Petroleum (BP) no Golfo do México proporciona uma didática demonstração do potencial de causar catástrofes embutido na combinação de dois cânones da “globalização” financeira: a “autorregulamentação” de certas atividades privadas e a mentalidade de enxugar custos ao extremo. E para que ninguém pense que tal conclusão é gratuita, as evidências foram proporcionadas pelo porta-voz, por excelência, da “globalização”, o Wall Street Journal.
Falhas técnicas?
Na edição de 28 de abril, o Journal destaca que a plataforma Deepwater Horizon, que explodiu no dia 20 daquele mês, provocando a morte de 11 pessoas e um colossal vazamento de óleo que ainda não foi controlado, não tinha um dispositivo de segurança adicional que, possivelmente, poderia ter impedido o desastre. Segundo a reportagem, na plataforma, a válvula de segurança (blowout preventer) responsável pela vedação da passagem do óleo ou gás em casos de emergência tinha apenas dois sistemas de acionamento, um manual e outro automático, mas ambos falharam por motivos ainda desconhecidos. Entretanto, a plataforma não dispunha de um sistema acústico que fecha a válvula por meio de sinais sonoros, cujo uso não é exigido pelas autoridades reguladoras dos EUA e do Reino Unido.
O próprio órgão responsável pela regulamentação e supervisão das atividades petrolíferas nos EUA, o Minerals Management Service (MMS), decidiu em 2003 que o uso de tais dispositivos necessitava de mais estudos. «Os sistemas acústicos não são recomendados porque tendem a ser bastante custosos», afirma um relatório do órgão.
Porém, segundo o Journal, um dispositivo acústico do gênero custa cerca de 500 mil dólares, valor irrisório se comparado aos enormes custos operacionais envolvidos na exploração de petróleo em alto mar. A plataforma destruída, por exemplo, custava 560 milhões de dólares e a própria BP anunciou que estava gastando 6 milhões de dólares por dia nas operações de combate ao vazamento de óleo. Quanto aos prejuízos ambientais e econômicos decorrentes, já estimados na casa dos bilhões de dólares, somente poderão ser calculados depois que o vazamento for controlado, o que ninguém se atreveu até agora a afirmar quando ocorrerá.
Não é a primeira da BP
O jornal observa que tais equipamentos são exigidos pelas autoridades reguladoras da Noruega e do Brasil e cita a porta-voz da Autarquia de Segurança Petrolífera da Noruega (PSA), Inger Anda, segundo a qual eles têm um histórico de eficiência no Mar do Norte.
A BP parece ser reincidente em tais práticas. Em 2005, uma explosão ocorrida na refinaria da empresa em Texas City deixou 15 mortos e 170 feridos. A investigação feita pela Agência de Segurança e Saúde Ocupacional do Departamento do Trabalho (OSHA) constatou que a empresa havia deixado, deliberadamente, de implementar mais de 300 de medidas de segurança. Outra investigação foi feita pelo Comitê de Segurança Química (CSB). Em 24 de março último, no quinto aniversário do acidente, o presidente do CSB, John Bresland, divulgou um comunicado no qual afirma:
«Nossa equipe de investigação produziu extensas evidências mostrando uma catástrofe esperando para ocorrer; que a prática de redução de custos afetou os programas de segurança e manutenção crítica; pressões por produção resultaram em falhas custosas cometidas por trabalhadores provavelmente fatigados por longas horas de trabalho; auditorias e estudos de segurança internos levaram os problemas à atenção do conselho de administração da BP em Londres, mas eles não foram suficientemente levados em conta. Ainda assim, a companhia se orgulhava do seu registro de segurança pessoal» (Industrial Plant Safety, 24/03/2010).
A promiscuidade entre órgão regulador e indústria ficou igualmente manifestada na isenção de fiscalizações obtida pela BP para a Deepwater Horizon junto ao MMS, no ano passado, que, até antes do acidente, a empresa estava se empenhando para estender às suas demais plataformas no Golfo do México (The Herald, 9/05/2010).
E agora, José?
«Nós acreditamos que as atuais estatísticas de segurança e ambientais da indústria demonstram que os programas voluntários… continuam sendo bem sucedidos», afirmava antes do acidente o vice-presidente da BP nos EUA, Richard Morrison (USA Today, 10/5/2010). Seria interessante conhecer a sua opinião depois dele.
Movimento de Solidariedade Íbero-americana
Créditos: este post é matéria apresentada no boletim eletrônico do Movimento de Solidariedade Íbero-americana, MSIa INFORMA, Volume II, n° 4, de 14/05/2010. Introduzi subtítulos no texto para facilitar e incentivar a leitura.
Os livros a ler são: «A Doutrina do Choque – A Ascensão do Capitalismo de Desastre», da autoria de Naomi Klein (Editora Nova Fronteira, RJ); e «A Corporação – A História Secreta do Século XX e o Início do Governo Mundial do Futuro», de Nicholas Hagger (Editora Pensamento-Cultrix, SP).
MSIa INFORMA é uma publicação do Movimento de Solidariedade Ibero-americana (MSIa). Conselho editorial: Angel Palacios, Geraldo Luís Lino, Lorenzo Carrasco (Presidente), Marivilia Carrasco, Nilder Costa e Silvia Palacios. Endereço: Rua México, 31 – sala 202 – Rio de Janeiro (RJ) – CEP 20031-144; Telefax: 0xx 21-2532-4086.
Para saber mais sobre o tema: visitar os sites da MSIa/Capax Dei: http://www.alerta.inf.br/ e http://www.msia.org.br/ . Mensagens e sugestões, favor enviar para msia@msia.org.br.
Imagens: jornale.com.br; forum.outerspace.terra.com.br; e abides.org.br.![]()