Amazônia – Londres promove desenvolvimento evitado
O ambientalismo radical não dá tréguas ao Brasil e um de seus principais objetivos é inibir o desenvolvimento da Amazônia.Amazônia – Londres promove desenvolvimento evitado
A reunião foi organizada por ninguém menos que o príncipe Charles, herdeiro do trono britânico, e contou com as presenças dos primeiros-ministros do Japão, Austrália, Noruega e Itália, dos presidentes da França e da Indonésia, do rei da Arábia Saudita, da chanceler alemã Angela Merkel e da secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton. Participaram ainda o secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, o presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick, e o presidente da Comunidade Européia, Durão Barroso. O Brasil foi representado pelo chanceler Celso Amorim, acompanhado pelo diretor-geral do Serviço Florestal Brasileiro, Tasso Azevedo.
Engendrando a conquista da Amazônia
Segundo uma nota do Ministério do Meio Ambiente (2/04/2009), os recursos mencionados seriam repassados aos países tropicais com base nos resultados obtidos na conservação das florestas, usando os mesmos princípios que o Brasil aplica no chamado Fundo Amazônia. Os presentes concordaram em estabelecer um grupo de trabalho internacional que deverá apresentar um modelo de operacionalização da ideia até julho próximo, para se chegar a um modelo passível de consenso antes da Conferência das Partes da Convenção de Mudanças Climáticas, a ser realizada em Copenhague, no final do ano.
Para qualquer pessoa minimamente informada, não fica a menor dúvida de que tal montanha de dinheiro acenada em Londres jamais seria “paga” a países tropicais sem alguma contrapartida econômica e/ou geopolítica, além da propalada “conservação florestal”, eufemismo que oculta interesses que nada têm a ver com questões ambientais.
O fato é que os países da União Européia se jogaram de cabeça na política para conter o suposto aquecimento global antropogênico e impuseram a si próprios metas inviáveis de controle das emissões de dióxido de carbono, apontado como o principal causa do fenômeno. Isto, naturalmente, acarretou custos econômicos e financeiros crescentes, que já se refletem nos preços das cadeias produtivas desses países, situação que tende a se agravar em decorrência da crise econômico-financeira global.
Eles querem inibir nosso crescimento
Em tal quadro, surgiram fortes pressões na Europa para que se exigisse uma espécie de “isonomia de carbono” de países emergentes como a China, Brasil, Índia e outros que, segundo o Protocolo de Kyoto, não estão obrigados a cumprir metas para reduzir suas emissões de CO2.
Sob os termos do Protocolo, como é sabido, uma das formas para compensar essas emissões é a compra de “créditos de carbono” oriundos de florestas plantadas, mas não das nativas, como as da Amazônia e as da bacia do rio Congo, na África. À época, prevaleceu o argumento que, se as nativas fossem incluídas, os grandes “poluidores” poderiam continuar a emitir CO2 por meio da compra de créditos de carbono lastreados nas imensas quantidades do gás incorporado nas árvores dessas florestas.
Porém, como o então maior emissor mundial de CO2, os EUA, se recusaram a referendar o Protocolo, este tornou-se letra morta para efeitos práticos, excetuando-se nos países da UE, que, mesmo sem sucesso (salvo a Alemanha), vinham tentando alcançar suas metas de redução.
Só que Copenhague não deu certo
Diante desse impasse e com a vigência do Protocolo de Kyoto chegando ao seu término (2012), os arquitetos do “aquecimentismo” antropogênico puseram em marcha um “plano B” que pudesse ser aceito em Copenhague tanto pelos países desenvolvidos quanto pelos emergentes, ocasião em que serão estabelecidas as diretrizes para um novo acordo sobre mudanças climáticas pós-Kyoto.
Esse “plano B”, lançado oficialmente durante a Conferência das Partes realizada em novembro de 2007, em Bali, Indonésia, foi denominado “Reduzindo Emissões do Desmatamento e Degradação Florestal” (REDD, em inglês) e tem como base a inclusão das florestas tropicais nativas no cômputo das quantidades de créditos de carbono ofertadas nas bolsas de valores que operam com tais “derivativos de fumaça”. Para que seja aceito com mais facilidade pelos países tropicais, o REDD é apresentado como um pagamento pelo “desmatamento evitado” ou por “serviços ambientais prestados” pelas florestas tropicais que se mantiverem intocadas.
Novamente o príncipe de olho na Amazônia
O REDD foi inicialmente delineado pelo príncipe Charles, em outubro de 2007, durante um jantar especialmente realizado pelo Fundo Mundial para a Natureza (WWF), por ocasião do lançamento de seu mais novo programa, a “Iniciativa Amazônica”. Em seu discurso, no qual Charles prestou uma comovente homenagem ao WWF e a seu pai, o príncipe Philip, fundador e presidente emérito da ONG, os objetivos ficaram claros:
«Senhoras e senhores, as florestas [tropicais] precisam ser vistas como elas são – gigantescas utilidades globais, provedoras de serviços públicos para a humanidade em vasta escala. (…) Nenhum desses países pode resolver sozinho o problema do desmatamento, pois, frequentemente, ele é causado pela demanda de países desenvolvidos por óleo de palma, carne e soja. O ponto aqui é que todos nós – o mundo todo – estamos juntos nisso e é por isso que, juntos, precisamos garantir que todas as medidas necessárias [para conter o desmatamento] sejam empregadas. (…) Nós trabalharemos com o setor privado, governos e especialistas ambientais para desenvolver um leque de soluções práticas que podem começar a ser implementadas nos próximos dezoito meses. Isso é importante, pois é nesse período que o G-8 e a ONU vão estabelecer as prioridades no durante as negociações [da extensão] do Protocolo de Kyoto. A tarefa é revisar, desenvolver e propor mecanismos, incluindo soluções legislativas e de mercado e outras idéias que reconheçam o valor real dos serviços do carbono e do ecossistema proporcionados pelas florestas remanescentes.»
Os conspiradores e, claro,… as ONGs
Posteriormente, em abril de 2008, Charles organizou e realizou um encontro especial em Londres, reunindo autoridades e parlamentares de estados da Região Amazônica com representantes de instituições financeiras e das indefectíveis ONGs. Estiveram presentes os governadores Ana Júlia Carepa, do Pará; Waldez Góes, do Amapá; e José de Anchieta Júnior, de Roraima. O Acre e o Amazonas foram representados pelos senadores Tião Viana (PT) e Arthur Virgílio (PSDB), respectivamente. Dentre os demais participantes, destacaram-se executivos de grandes empresas como Rio Tinto, Shell, Deutsche Bank, Goldmann Sachs, Morgan Stanley e MacDonald’s, que se misturaram com dirigentes do WWF, Greenpeace, Friends of the Earth (Amigos da Terra) e até mesmo de líderes indígenas como Almir Suruí, da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB).
Querem “guardar” a floresta?
Segundo explicou um dos organizadores do encontro, o empresário brasileiro Jorge Pinheiro Machado, Charles quer se transformar em interlocutor privilegiado entre as personalidades brasileiras envolvidas nas questões amazônicas e as lideranças britânicas interessadas na “proteção” da Floresta Amazônica. O objetivo de Sua Alteza Real é promover uma espécie de “financeirização” das florestas nativas via remuneração dos “serviços ambientais” que elas prestam à humanidade. A linha de ação do esquema prevê a melhoria da qualidade de vida dos povos da floresta – leiam-se índios – para que se transformem em “guardiões das florestas”. Segundo ainda Machado, a Comunidade Britânica de Nações estaria disposta a desembolsar cerca de 10 bilhões de libras esterlinas para remunerar os serviços ambientais prestados pelas florestas.
Eles querem é nos comprar
Voltando à reunião paralela em Londres, a presença da secretária de Estado Hillary Clinton no evento se deve à mudança de orientação na política dos EUA com relação ao tema. Diferentemente do seu antecessor, o presidente Barack Obama é um adepto entusiasta da tese “aquecimentista” e já anunciou planos para implantar um abrangente esquema de mercado (chamado cap-and-trade) para controlar as emissões de CO2, que, conceitualmente, pouco difere do adotado pelos europeus. As principais diferenças ficam por conta dos valores e prazos das metas de redução – muito mais suaves para os EUA -, e a certeza que o plano encontrará uma enorme resistência no Congresso, ainda mais em tempos de aguda crise econômica.
Em suma, a “solução de mercado” preconizada no esquema REDD tem ao menos dois objetivos estratégicos entrelaçados: permitir que os países industrializados continuem a emitir carbono em quantidades gigantescas – que seriam, entretanto, “compensadas” pelas florestas tropicais intocadas – e, ao mesmo tempo, obstaculizar o desenvolvimento socioeconômico das vastas regiões onde elas estão localizadas, em especial a Amazônia e a África Subsaariana.
A longo prazo, manter-se-ia a estratégia perseguida pelo establishment anglo-americano de preservar a Amazônia como uma imensa reserva de recursos naturais, subpovoada, isolada e retalhada por dezenas de territórios indígenas em busca de “autonomia”. Por isso mesmo, a política de “desmatamento evitado” promovida por Londres deve ser chamada pelo que realmente é: desenvolvimento evitado.![]()
Nilder Costa
Para saber mais sobre o tema, visitar os sites da MSIa/Capax Dei:
http://www.alerta.inf.br/ e http://www.msia.org.br/
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