Antropóloga critica divisão racial do Brasil

“Dividir para conquistar”, provérbio antigo, mas que continua em pauta. Dividir a sociedade-alvo em nichos, ou em partes, para facilitar o seu controle e manuseio, baseada em parâmetros raciais tem o mesmo princípio metodológico do indigenismo e do ambientalismo, que visa a desagregação dos países e a implantação de áreas específicas para cada uma das “classes” de indivíduos, no território das nações, sob proteção internacional. De tudo isso surgem as reservas ecológicas, indígenas e as de quilombolas, por exemplo. Nos casos extremos, podem ser criados pequenos “Estados” dentro dos Estados nacionais, com independência total dos países de origem, fugindo, então, do controle destes. Em casos mais extremos ainda, causam guerras, como nos Bálcãs, com a morte de milhares de pessoas. Este é um perigo, cujo mal tem que ser cortado pela raiz.

Este post trata de matéria apresentada no boletim eletrônico do MSIa – Movimento Solidariedade Íbero-amaricana, n° 14, de 03/06/2009. Os subtítulos foram acrescentados por mim para melhor leitura do texto. Eis a matéria.



Antropóloga critica divisão “racial” do País

Em uma contundente entrevista publicada no jornal O Globo de 31 de maio, a antropóloga Yvonne Maggie, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, desfechou pesadas críticas contra o estabelecimento de cotas raciais para o ingresso nas universidades, que considera uma tentativa de criar uma divisão artificial do Brasil inspirada por organismos estrangeiros. Entre eles, ela cita nominalmente a Fundação Ford, antiga e notória financiadora de iniciativas desagregadoras envolvendo temas sociais, como o ambientalismo, racismo e outros. Maggie saudou a recente decisão do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, de suspender a lei estadual que estipula uma reserva de vagas nas universidades estaduais. A seguir, reproduzimos os principais trechos da entrevista concedida ao jornalista José Meirelles Passos e recomendamos não só a sua leitura atenta, mas também a sua ampla divulgação:


O sistema de cotas

P – O sistema de cotas é apresentado como forma de criar oportunidades iguais para todos. A senhora discorda. Por quê?

YM – Porque ele faz parte de leis raciais que querem implantar no Brasil. E elas são inconstitucionais. A Constituição Federal proíbe criar distinções entre brasileiros ou preferências entre si. A do Estado do Rio também. Estou defendendo o estatuto jurídico da nação brasileira, com base no fato de que raça não pode ser critério de distribuição de justiça. Raça é uma invenção dos racistas para dominar mais e melhor.


P – Que critério usaram para criar tal sistema?

YM – Surgiu no governo de Fernando Henrique Cardoso, propondo cotas para negros ou pardos, hoje chamados de afrodescendentes, sob o critério estatístico do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Mas isso não significa que as pessoas se identifiquem com aquilo. Nós, brasileiros, construímos uma cultura que se envergonha do racismo… Não somos uma sociedade racista, pois não temos instituições baseadas em lei com critério racial. É interessante ver que o Brasil descrito nas estatísticas foi tomado como verdade absoluta. Há uma espécie de alucinação coletiva. Uma coisa é dizer que o Brasil é um país desigual, com uma distância muito grande entre ricos e pobres. Outra coisa é atribuir isso à raça.


Por que a criação das cotas?

P – Quais os motivos para a criação de leis raciais no país?

YM – Outra alucinação: a de que a forma de combater a desigualdade no Brasil deve ser via leis raciais. Elas propõem dividir o povo brasileiro em brancos e negros. Há quem diga que o povo já está dividido assim. Digo que não. Afinal, 35% dos muito pobres no Brasil se definem como brancos.


P – Qual é o melhor critério?
YM – Em vez de lutar contra o racismo com ações afirmativas, colocando mais dinheiro nas periferias, o governo optou pelas cotas raciais reservando certo número de vagas na escola e, com o estatuto racial, no mercado de trabalho. Então, o país que não se pensava dividido está sendo dividido.


P – O objetivo era beneficiar negros e pardos. Agora no Rio já existem cotas para portadores de deficiência, para filhos de policiais, de bombeiros. A tendência é esse leque aumentar?
YM – A lógica étnica ou racial não tem fim. Tudo surgiu porque houve pressão internacional com o sentido de combater o racismo. Mas quem domina os organismos internacionais são os países imperialistas, sobretudo Inglaterra e Estados Unidos, que têm uma visão imperialista de mundo dividido. Os EUA são um país dividido. Não pensam como nós. Lá a questão racial é a primeira identidade. Você pergunta “quem é você?”, e dizem: “sou afroamericano”, etc. Como não vivemos ódio racial no Brasil não sabemos o que é isso. O problema é que ao dividir e criar uma identidade racial, fica impossível voltar atrás.


Os EUA por trás, através de suas fundações oligárquicas e ONGs

P – O Brasil sucumbiu à pressão internacional?
YM – A pressão talvez tivesse caído no vazio se não houvesse dinheiro americano nessa história. A Fundação Ford investiu milhões de dólares no Brasil, formando advogados, financiando debates, criando organizações não governamentais (ONGs). Não temos mais movimentos sociais. Quem luta em favor das cotas se transformou em ONG que recebe dinheiro do governo e da Fundação Ford. Juntou-se a fome com a vontade de comer. O governo inventa as ONGs, financia, e depois diz que as cotas são uma demanda do povo.


P – Como combater a desigualdade no acesso à universidade?
YM – O Brasil tem que enfrentar a questão da educação básica de forma madura e consciente, investindo. Precisamos de recursos financeiros e humanos. Melhorar o salário dos professores e sua formação. E mudar a concepção de educação. Sem investimento não construiremos uma sociedade mais igual. Estamos criando uma sociedade mais desigual, escolhendo um punhadinho entre os pobres. Na verdade, a competição pelos recursos não é entre o filho da elite e o filho do pobre: ocorre entre os pobres.


P – É possível conter o lobby das ONGs favoráveis às cotas?
YM – É muito difícil ir contra grupos que se apresentam como o povo organizado. Temos que lutar pelo povo desorganizado, o povo que anda pela rua, que casa entre si, que joga futebol junto, que bebe cerveja, e não está o tempo todo pensando de que cor você é, de que cor eu sou. Povo é o que nos ensina que é melhor dar a mão do que negar um abraço.


Para saber mais sobre o tema, visitar os sites da MSIa/Capax Dei:

http://www.alerta.inf.br/ e http://www.msia.org.br/

Imagem: cotasecaderno.com

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