“Apartheid tecnológico” contra o Brasil

Em visita ao Rio de Janeiro (RJ), no início de maio, o ministro da Ciência e Tecnologia Sérgio Rezende afirmou que a determinação do Brasil para obter uma plena autonomia tecnológica no setor nuclear tem levado governos estrangeiros a dificultar ao País o acesso a componentes para programas tecnológicos avançados. «Há vários componentes do programa nuclear e espacial que o Brasil não consegue dos países que detêm essa tecnologia por motivos que todos entendemos. Não podemos ficar temerosos do que pode acontecer. Mas já estamos enfrentando, em muitos aspectos, essa questão: é quase um boicote», disse ele, segundo o jornal O Estado de S. Paulo (6/05/2010).


Laboratório novo é inaugurado no Brasil

Rezende veio ao Rio para inaugurar o Laboratório Multiusuário de Fusão a Arco, desenvolvido em parceria entre o Programa de Pós-graduação em Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (COPPE), as Indústrias Nucleares do Brasil (INB) e o Instituto Militar de Engenharia (IME). O laboratório produzirá, em escala pré-industrial, tubos com liga de zircônio onde são colocadas as pastilhas de urânio enriquecido para formar o elemento combustível dos reatores nucleares.

Na ocasião, o diretor de Produção do Combustível da INB, Samuel Fayad, recordou as dificuldades para o fornecimento de elementos combustíveis da usina nuclear Angra 1, na década de 1980, por parte da fabricante estadunidense Westinghouse: «Tivemos problemas com Angra 1 e fomos buscar uma solução com a Siemens, na época em que iniciava o Acordo Brasil-Alemanha».


“Apartheid” tecnológico

Tais fatos não constituem novidade, pois os esforços brasileiros na área nuclear sempre foram um alvo importante da política de “apartheid tecnológico” implementada pelo eixo anglo-americano após a II Guerra Mundial, como um elemento fundamental da sua estratégia hegemônica global. Vale recordar o malogro da primeira tentativa nacional de desenvolver a tecnologia de enriquecimento de urânio, em 1953, quando as centrífugas encomendadas na Alemanha pelo presidente do Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq), almirante Álvaro Alberto da Mota e Silva, foram apreendidas no porto de Hamburgo pela inteligência britânica.


O Brasil força a barra

Já nas décadas de 1970-80, sucessivos governos dos EUA se empenharam em esvaziar o Acordo Nuclear Brasil-Alemanha, conseguindo inviabilizar a vital transferência da tecnologia de enriquecimento de urânio por ultracentrifugação ao Brasil, fato que levou o governo Geisel a dar início ao bem sucedido programa nuclear paralelo, baseado em esforços conjuntos da Marinha do Brasil e da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN). O domínio da tecnologia de enriquecimento, aliado à base industrial e ao quadro técnico montados para o acordo nuclear com a Alemanha (que acabou se limitando à construção de Angra-2), colocaram o País em um patamar de capacitação no setor atingido por apenas poucos países, o que lhe proporciona uma importante carta estratégica na reconfiguração do cenário de poder global que se encontra em curso.


Novo acordo com a França

Outro objetivo do programa nuclear paralelo era o projeto de um submarino de propulsão nuclear, que, entretanto, foi prejudicado por restrições orçamentárias e numerosos outros problemas decorrentes de mudanças de orientação no comando naval e da atávica falta de visão estratégica das lideranças nacionais sobre as questões ligadas à defesa. Felizmente, o recente acordo estratégico estabelecido com a França deverá possibilitar a concretização do projeto, que dará à Marinha do Brasil uma capacidade operacional inusitada em seus quase dois séculos de história.


O Brasil resiste, e é mal interpretado

Essas novas perspectivas do Brasil parecem ser um tanto incômodas para os centros hegemônicos transatlânticos, que, além de vetar a venda de certos componentes e equipamentos, estão empenhados em enquadrar o País no chamado Protocolo Adicional do Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP), cuja revisão está sendo discutida nas Nações Unidas durante todo o mês de maio. Embora, como signatário do TNP, todas as instalações nucleares brasileiras estejam abertas às inspeções da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), o Protocolo Adicional inclui cláusulas que permitem inspeções não anunciadas em quaisquer lugares considerados suspeitos, inclusive propriedades privadas, pelo que até agora os governos nacionais o têm rechaçado.

Uma didática demonstração da contrariedade daqueles círculos é a recorrente insinuação de que o Brasil estaria desenvolvendo um programa oculto de armas nucleares, repetida no início de maio com grande destaque pelo alemão Hans Rühle em várias publicações. Em um artigo publicado em 7 de maio no sítio internacional da revista Der Spiegel, ele afirma categoricamente que o Brasil é hoje a «mais importante potência nuclear potencial» do mundo e diz que o projeto brasileiro de construção de um submarino de propulsão nuclear «pode ser, de fato, um disfarce para um programa de armas nucleares».


A agenda de dominação global continua…

Rühle não é um jornalista preguiçoso demais para fazer o seu dever de casa. Ele foi diretor de planejamento do Ministério da Defesa alemão entre 1982 e 1988, coordenador da Academia Federal de Segurança, ex-gerente geral da Agência de Administração do Desenvolvimento e Produção da Aeronave Multifuncional de Combate da OTAN (encarregada do gerenciamento do projeto do caça Tornado) e escreve sobre temas de segurança, com destaque para a proliferação nuclear. Em suma, trata-se de um veterano integrante de alto nível da rede transatlântica de estrategistas, tecnocratas, acadêmicos, jornalistas, políticos e oficiais militares e de inteligência que elaboram, colocam em prática e promovem a agenda de hegemonia global centrada no poderio militar dos EUA e da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Por isso, a sua investida demonstra que o Brasil tem alta prioridade na agenda daqueles círculos, talvez quase ao nível do Irã. Por motivos próprios, os dois países são vistos como desafios para a visão do mundo confrontacionista e militarista de tais supremacistas incorrigíveis.


Resposta brasileira

Felizmente, o governo brasileiro se mostrou atento. Em uma entrevista publicada três dias depois, embora apenas na página em alemão da revista, o ministro de Assuntos Estratégicos Samuel Pinheiro Guimarães foi direto ao ponto, ao contestar o pretexto da “não-proliferação”: «Este argumento é apenas um pretexto para que outros países desistam do seu direito ao desenvolvimento da tecnologia nuclear para fins pacíficos. Em realidade, as potências nucleares querem reforçar o seu oligopólio de poder nuclear e convencional».

Movimento de Solidariedade Íbero-americana

 

Créditos: este post é matéria apresentada no boletim eletrônico do Movimento de Solidariedade Íbero-americana, Volume II, n° 4, de 14/05/2010. Introduzi subtítulos no texto para facilitar e incentivar a leitura.

Para maiores informações sobre o tema, visitar o side do Movimento de Solidariedade Íbero-americana em: msia.org.br

Imagem: areaseg.com

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