Brasil: desindustrialização triunfante
Em sua coluna no Valor Econômico de 20 de abril («Os BRIC e Nós»), o ex-ministro Antonio Delfim Netto fez uma advertência sobre as consequências da visão estreita e, não raro, quase triunfalista sobre uma imaginada inevitabilidade do desenvolvimento nacional, se o País se acomodar à “corrente principal” dos fatos mundiais, sem se importar em estabelecer uma agenda que contemple, satisfatoriamente, os interesses do País como um todo. Referindo-se às projeções matemáticas sobre o crescimento dos países do grupo BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), Delfim criticou o entusiasmo exagerado com avaliações que, em suas palavras, «revelam a “esperança” de que eles poderão bastar-se a si mesmos, independentemente do que ocorre com a economia mundial». Com outras nuances, o mesmo se pode afirmar a respeito das ilusórias concepções de que o Brasil deveria atrelar prioritariamente as suas expectativas econômicas a grandes mercados externos, como os EUA e a China, neste caso, atuando basicamente como exportador de matérias-primas (e cada vez mais importador de produtos manufaturados).
Em relação à China, Delfim não faz rodeios e afirma que o gigante asiático «esconde mal o “moderno imperialismo” na busca de suprimento seguro de matérias-primas, como vemos na África e agora no Brasil».
O futuro do Brasil
Nos dois parágrafos finais, o ex-ministro apresenta uma lúcida listagem das características objetivas do País para deslanchar definitivamente um processo de desenvolvimento socioeconômico à altura de suas enormes potencialidades:
«O Brasil precisa pensar em si e não pendurar-se em ilusões… De todos os BRIC o Brasil é o país que tem maior probabilidade de ver realizadas as “projeções” . Tem: 1) um estoque genético riquíssimo que estimula a adaptação e a tolerância; 2) um importante mercado interno; 3) matriz energética adequada; 4) uma promissora disponibilidade futura de petróleo; 5) terra, água e tecnologia para expandir sua agricultura; 6) uma única língua e, não tem: 1) problemas de fronteira e 2) problemas étnicos e religiosos sensíveis. Mais do que tudo isso, somos uma democracia constitucional consolidada com um Supremo Tribunal Federal independente que “garante” nossas liberdades individuais. Nossa ambição de crescimento é modesta (5% ao ano), o que nos acomodará bem na economia mundial.»
Assistimos nossa desindustrialização de camarote
Essas considerações são ainda mais relevantes no contexto da passividade generalizada com que as lideranças de todos os setores – políticas, empresariais, acadêmicas, midiáticas etc. – assistem ao processo de desindustrialização que o País vem experimentando (sobretudo, diante da enxurrada de importações de manufaturados chineses), que tem sido objeto de repetidas análises desta Resenha.
Mais uma manifestação dessa tendência, a enésima, se mostra no déficit da indústria de transformação registrado no primeiro trimestre do ano, da ordem de 7,7 bilhões de dólares em relação ao mesmo período de 2009 – ou seja, um crescimento de 89%! Grande parte desse resultado se deve à teimosia de preservação da política de câmbio flutuante e juros altos do Banco Central (BC), que só atende aos interesses do mercado financeiro, mas penaliza drasticamente os setores produtivos – e que deverá agravar-se com a anunciada elevação da taxa Selic pelo BC.
Nossa situação deverá se agravar
Em entrevista ao Valor Econômico (22/04/2010), o economista Rogério César Souza, do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI), afirma que a tendência de deterioração setorial deverá agravar-se este ano: «O desempenho dos primeiros meses mostra que é bem possível que tenhamos um recorde no déficit da balança da indústria de transformação em 2010».
Souza reconhece que se trata de um problema estrutural, que só pode ser revertido com a formulação e aplicação de uma política industrial voltada para a produção de manufaturados com maior valor agregado – exatamente o que as pragmáticas lideranças da China vêm tratando de fazer, mas, por aqui, ainda provoca urticárias em indivíduos acomodados ao jogo das finanças.
O problema se mostra claramente nos números referentes ao valor relativo das exportações e importações brasileiras para/e da China e Coréia do Sul. Segundo o economista Renaud Barbosa da Silva, da Fundação Getúlio Vargas, nos últimos três anos, o valor médio por tonelada exportada foi de 115 dólares para a primeira e 175 para a segunda, contra um valor médio por tonelada importada de 2.857 dólares da China e 4.543 da Coreia do Sul (O Globo, 19/02/2010).
Os números falam por si mesmos e simbolizam a acomodação generalizada de um país que tem um dos maiores e mais diversificados parques industriais do mundo – mas parece não se preocupar em preservá-lo.![]()
Movimento de Solidariedade Íbero-americana
Créditos: este post é matéria apresentada no boletim eletrônico do Movimento de Solidariedade Íbero-americana, Volume II, n° 2, de 29/04/2010. Introduzi subtítulos para facilitar e incentivar a leitura.
Para outras informações, consultar o site do Movimento de Solidariedade Íbero-americana em: msia.org.br
Imagem: guaciara.files.wordpress.com![]()