Ensino profissionalizante: bom ou ruim?

Está escrito no site da UNESCO (www.unesco.org): «A UNESCO apóia ações relativas ao desenvolvimento de competências de gestores e de equipes técnicas, no que se refere ao planejamento e à execução de ações que incrementem o acesso à educação, a permanência dos alunos nas escolas, a eficiência e a eficácia da educação profissional oferecida à população brasileira. Em consonância com as recomendações mundiais, desde 1997, a educação profissional tem sido eixo basilar de atuação da Representação da UNESCO no Brasil. Em parceria com os governos federal e estaduais, os trabalhos têm tido como foco a divulgação de idéias, a promoção de reflexões e a oferta de subsídios para a definição de políticas públicas que atendam, efetivamente, às necessidades sociais e contribuam para a melhoria do sistema educacional no Brasil.»

Este texto, aparentemente, demonstra as boas intenções da UNESCO. No entanto, devemos analisar com mais detalhes o que significa o ensino dito como “profissionalizante”. Parece nobre a idéia, não é? Mas por trás dessas boas intenções também pode rolar muita coisa ruim para o Brasil.


O “engenheiro operacional”

Lembro-me bem, quando ainda era estudante de arquitetura no Fundão (UFRJ), de que havia sido instituído, na Faculdade de Engenharia, aquilo que se chamava, na época, de “engenheiro operacional” – isto é, um tipo de “engenheiro” que se formava em apenas três anos, e tinha plenas “condições” de operar os sistemas de engenharia disponíveis então. Eu me formei em 1970, e pelo que eu saiba, em 1977, o Ministério da Educação extinguiu em nível nacional os cursos de Engenharia Operacional oferecidos por várias instituições no país, voltando a exigir os cursos de engenharia plena em todas as universidades. Ainda bem.

Pois o que era um engenheiro operacional? Era aquele que só tinha formação suficiente para operar sistemas, mas não de projetá-los. Para projetá-los, ele teria de ter os conhecimentos teóricos que só o curso completo de engenharia pode oferecer, ou seja, os cursos de engenharia plena.


Por que a engenharia operacional?

Mas por que foi criado o curso de engenheiro operacional? Indo direto à resposta, sem rodeios: para que, aos poucos, o Brasil fosse perdendo sua capacidade de projetar e de criar seus próprios sistemas de engenharia, suas próprias obras, e dificultando ou impedindo seu processo de industrialização, permanecendo dependente dos projetos vindos do exterior. Foi uma iniciativa de tentar deter o crescimento técnico-científico brasileiro, com o intuito de tornar o Brasil um refém da tecnologia estrangeira de ponta.

Essa política faz parte da agenda das oligarquias internacionais dos países centrais, sob o comando da corporatocracia mundial. Impedir o desenvolvimento técnico-científico dos países do terceiro Mundo é a meta. Todo mundo sabe da resistência que houve quando o Brasil quis desenvolver aqui a tecnologia nuclear. Obviamente, tivemos que comprar tecnologia estrangeira, alemã, como manda o figurino… Se nãofosse a teimosia patriótica dos dirigentes brasileiros à época, nem isso conseguiríamos. E o mesmo está acontecendo em outros lugares do mundo, hoje em dia.


O caso do Irã é emblemático

Não se trata da farsa de deter o desenvolvimento nuclear militar daquele país, mas sim, de impedir o seu acesso àquela tecnologia. O governo do Irã sabe que num futuro não muito distante, a tecnologia nuclear para fins energéticos será crucial em todo o mundo, a partir do momento em que as reservas de petróleo, embora ainda não acabadas, se tornará, certamente de acesso cada vez mais difícil, sendo cada vez mais cara sua extração e assim, perdento a possibilidade de competir com outras tecnologias, as quais, por sua vez, ficarão cada dia mais baratas e eficientes. E a tecnologia nuclear, provavelmente, tornar-se-á uma das mais viáveis. A oligarquia anglo-americana não quer a independência energética do Irã, mas sim, que aquele país fique, eternamente, refém dos projetos provenientes das suas empresas transnacionais.


Celeiro do mundo,… e pobre

Muita gente se gaba de que o Brasil pode se tornar o celeiro do mundo, o maior fornecedor de comida e de matérias primas para todo o planeta etc etc. Isso não deixa de ser verdade, mas todo país que permanece nesse estágio, permanece no subdesenvolvimento. Todo país que insiste em, apenas, vender suas riquezas naturais e a alimentação que produz pertence ao Terceiro Mundo. E acaba ficando sem suas riquezas naturais, necessárias a seu próprio desenvolvimento industrial. Um país só progride social e economicamente, quando se industrializa. Todos os países do chamado Primeiro Mundo são chamados, justamente, de países industrializados. Isso, portanto, não é à toa.

Só que um país para se industrializar, tem que fazer projetos industriais, tem que produzir máquinas, sistemas de produção e tudo o mais. E não pode obter isso comprando os projetos prontos dos países “centrais”, aqueles, os industrializados. Infelizmente, no caso do Brasil, muito do que se fez em termos de industrialização no país foi às custas da compra, exatamente, de projetos – e pagando por eles os olhos da cara, certamente, e, pior, na maioria doa casos sem a opção de “passar” as tecnologias para os técnicos brasileiros as utilizar à vontade, obviamente.

Hoje, felizmente, o Brasil (depois que se livrou da engenharia eopracional), já tem gente suficiente para fazer projetos – os nossos projetos – e muito do que se constrói, atualmente, já é com tecnologia genuinamente brasileira (vide a nossa Petrobrás). Mas ainda há outros entraves, e estes, são muito mais difíceis de ser abolidos do que o da engenharia operacional, porque abrangem uma gama absolutamente gigantesca de brasileiros – o que não acontecia com meia dúzia de gatos pingados que eram aqueles que se dedicavam à famigerada engenharia operacional.


O ensino profissionalizante

Trata-se do ensino profissionalizante, que atinge os estudantes até o nível de segundo grau. Muita gente poderá achar que eu sou maluco por colocar restrições aos cursos profissionalizantes, como farei neste post, mas acontece que há, de fato, algumas coisas a considerar, coisas essas que não costumam passar pelas cabeças da maioria das pessoas.

Vamos tomar como exemplo um típico estudante da classe socioeconômica “C” ou “D”, que, certamente, estará incluído dentre os maiores clientes dos cursos de segundo grau profissionalizantes. Ele mora mal, muitas vezes numa favela ou num conjunto habitacional de baixa renda, sua mãe é empregada doméstica, seu pai porteiro de edifício, ou coisas semelhantes. Com muito esforço, dele e de seus pais, ele chegou a um curso profissionalizante, desses, do SENAI, do SENAC etc, completou-o, formando-se, digamos,… em torneiro mecânico. Tendo conseguido um emprego no ABC paulista, devidamente sindicalizado, ganha mais do que os seus pais juntos e já até comprou um imovelzinho no mesmo conjunto habitacional, ou na mesma favela onde seus pais moram, e casou.

Trabalha mais de oito horas por dia, porque tem que fazer horas extras para melhorar o orçamento doméstico, chega em casa cansadíssimo – pois esse tipo de emprego que conseguiu exige muito do seu físico – e vai dormir cedo, pois tem que estar na porta da sua fábrica antes das sete horas do dia seguinte.


Fazer uma faculdade, como?

Pergunto: será que esse moço pensa em progredir mais na vida, fazendo um curso de nível superior? Pode ser até que sim, se ele for um super-homem, se ganhar dinheiro suficiente para pagar um cursinho vestibular para poder ingressar numa universidade pública, ou, quem sabe, até mesmo entrar para uma universidade paga em virtude de, tendo feito escolas públicas até o segundo grau, não ter conhecimentos suficientes para enfrentar um vestubular. Será que esse moço conseguirá alguma dessas coisas?

Presumivelmente, não, pois, antes de tudo, ele já está acostumado àquela vidinha pobre, como seus pais, e até por ter melhorado um pouco por causa do seu curso profissionalizante. Isso significa o quê? Que ele chegou ao topo de sua vida profissional, podendo, eventualmente obter aqui e ali uma pequena promoção por sua experiência acumulada, tornando-se o chefe de uma sessão qualquer e ponto final. E vai ficar nela até sua aposentadoria pelo INSS, a qual, certamente, será menor do que o seu salário corrente.


Podemos culpar os cursos profissionalizantes?

Não posso dizer, absolutamente, que foi só o curso profissionalizante de torneiro mecânico (que ele, certamente viu como degrau para, muito eventualmente, levá-lo à Presidência da República… rsrsrs) que o impediu de progredir, mas, certamente, contribuiu enormemente para sua estagnação profissional – e como pessoas como ele são milhões no Brasil, contribuiu também para a estagnação socioeconômica e técnico-científica do Brasil. Começando logo a trabalhar, pois nosso trabalhador hipotético é um sortudo, ganhando mais do que seus pais juntos, habituado naquele mundo de pobreza e até se sobressaindo, consideravelmente dele, tentar uma faculdade para quê e como?

Sua formação escolar não permite isso, antes de mais nada. Ele é quase um analfabeto funcional, não consegue entender tudo o que lê, caso os parágrafos tenham mais de três ou quatro linhas…

Assim, fornecer cusros profissionalizantes às crianças, antes que elas tenham uma formação escolar plena é um risco muito grande. De posse de um diploma de curso técnico profissionalizante a criança poderá conseguir um emprego? Embora nem tão facilmente, mas já pode, mas, se consegui-lo, terá enormes dificuldades em, ao mesmo tempo, tentar conseguir entrar para uma faculdade.


A agenda oligárquica internacional por trás

É sutil essa hipótese de que esses cursos técnicos profissionalizantes tenham esse objetivo – o de não permitir que o estudante passe do estágio de nível técnico – mas que isso é uma enormíssima possibilidade, é. Basta olharmos a proporção entre os que começam a estudar e os que terminam um curso de nível superior no Brasil: cerca de 1%, se tanto. Há países na Europa, como a Espanha, por exemplo, que essa proporção chega a 90%!

Eu não tenho dúvidas quando a culpa no cartório por parte das oligarquias internacionais que não querem o desenvolvimento técnico e científico brasileiro, assim como em todos os países do Terceiro Mundo, a fim de que nós fiquemos, eternamente, dependentes de tecnologia estrangeira. E é por isso que a ONU, através da UNESCO, tanto faz por manter, incrementar e difundir a “beleza” que é a instituição, cada vez maior, dos cursos técnicos profissionalizantes no Brasil!

E pior, os atuais candidatos à Presidência da República – todos eles – se gabam de ter em seus programas de governo, aumentar ainda mais esses cursos, como se estivessem prometendo fazer a melhor coisa do mundo para os estudantes brasileiros! É mesmo? Apenas uma pergunta: quem será que financia esses candidatos?

Hoje já há falta de engenheiros no Brasil. Mas tê-los como, se a maioria da população esbarra nos cursos técnicos profissionalizantes e fica por lá mesmo? Por isso tudo, tenho a impressão de que o ensino profissionalizante pode ser uma falácia – ou, pelo menos, têm que ser encarado de outra forma, com parcimônia, e não serem vistos como uma solução definitiva para a juventude brasileira, porque isso, certamente, os tais cursos técnicos profissionalizantes não são, e também, porque não dizer, mormente para o progresso do Brasil.




Imagens: papodeobra.blogspot.com; singramar.blogspot.com; e juizdefora.olx.com.br.





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