Flashes sobre a escravidão no Brasil
Po
r volta de 1830, o escravo José Francisco dos Santos conquistou a liberdade. Depois de anos de trabalho forçado na Bahia, viu-se livre da escravidão, provavelmente comprando sua própria carta de alforria ou ganhando-a de algum amigo rico. Estava enfim livre do sistema que o tirou da África quando jovem, jogou-o num navio imundo e o trouxe amarrado para uma terra estranha. José tinha uma profissão – havia trabalhado cortando e costurando tecidos, o que lhe rendeu o apelido de “Zé Alfaiate”. No entanto, o ex-escravo decidiu dar outro rumo à sua vida: foi operar o mesmo comércio do qual tinha sido vítima. Voltou à África e se tornou traficante de escravos. Casou-se com uma das filhas de Francisco Félix de Souza, o maior vendedor de gente da África atlântica, e passou a mandar ouro, negros e azeite de dendê para vários portos da América e da Europa.
Testemunho de Pierre Verger
Foi o fotógrafo e etnólogo Pierre Verger que encontrou, com um neto de Zé Alfaiate, uma coleção de 112 cartas escritas pelo ex-escravo. As mensagens foram enviadas entre 1844 e 1871 e tratam de negócios com Salvador, Rio de Janeiro, Havana (Cuba), Bristol (Inglaterra) e Marselha (França). Em 22 de outubro de 1846, numa carta para um comerciante da Bahia, o traficante conta que teve problemas ao realizar um dos atos mais terríveis da escravidão – marcar os negros com ferro incandescente. Diz ele:
«Por esta goleta [uma espécie de escuna] embarquei, por minha conta em nome do sr. Joaquim d’Almeida, 20 balões [escravos] sendo 12 H. e 8 M. com a marca “5”” no seio direito. Eu vos alerto de que a marca que vai na listagem geral é “V seio” mas, como o ferro quebrou durante a marcação, não houve então outro remédio senão marcar com ferro “5”.»
Vingança, ou um hábito comum?
Talvez Zé Alfaiate tenha entrado para o tráfico por um desejo de vingança, na tentativa de repetir com outras pessoas o que ele próprio sofreu. O mais provável, porém, é que visse no comércio de gente uma chance comum e aceitável de ganhar dinheiro, como costurar ou exportar azeite. Havia muito tempo que o costume de atacar povos inimigos e vendê-los era comum na África. Com o tráfico pelo oceano Atlântico, as pilhagens a povos do interior, feitas para capturar escravos, aumentaram muito – assim como o lucro de reis e nobres cidadãos comuns africanos que operavam a venda. Essa personalidade dupla da África diante do tráfico de escravos às vezes aparece num mesmo indivíduo, como é o caso de Zé Alfaiate. Ex-escravo e traficante, foi ao mesmo tempo vítima e carrasco da escravidão.
Brasil e África eram sócios no tráfico
Não era preciso sair do Brasil para agir como ele. Por aqui, os escravos tiveram que se adaptar a um novo modo de vida, mas não abandonaram costumes do outro lado do Atlântico. Nas vilas da corrida do ouro de Minas Gerais, nas fazendas de tabaco da Bahia. era comum africanos ou descendentes escravizarem.
Como um pedaço da África, cristão e falante de português, o Brasil também abrigou reis africanos que vinham se exilar no país quando a situação do seu reino complicava. Embaixadores negros interessados em negociar o preço de escravos, e até mesmo filhos de nobres africanos vinham estudar na Bahia, numa espécie de “intercâmbio estudantil”. Esses fenômenos certificam uma boa metáfora que Joaquim Nabuco usa no livro «O Abolicionismo» – clássico do movimento brasileiro pelo fim da escravidão. Nabuco dizia que o tráfico negreiro provocou uma união das fronteiras brasileiras e africanas, como se a África tivesse aumentado seu território alguns milhares de quilômetros. «Lançou-se, por assim dizer, uma ponte entre a África e o Brasil, pela qual passaram milhões de africanos, e estendeu-se o hábitat da raça negra das margens do Congo e do Zambeze às do São Francisco e do Paraíba do Sul.»! Com os mais de quatro milhões de escravos que vieram forçados ao Brasil, veio também a África.
Eram os negros, realmente, apenas vítimas?
Na década de 1990, quando os historiadores passaram a dar mais peso à influência da cultura africana na escravidão brasileira, os estudos sofreram uma revolução. Em obras como «Em Costas Negras», publicada em 1997 pelo historiador Manolo Florentíno, houve uma mudança de ponto de vista muito parecida com a que aconteceu com os índios. Os negros deixaram de ser vistos como vítimas constantemente passivas, que nunca agiam por escolha própria. ««Em franca reação à visão reificadora do africano sugerida pelos estudos das décadas de 1960 e 1970, os historiadores buscaram mostrar o negro como sujeito da história, protagonista da escravidão, ainda que não aquilombado, quando não cúmplice do cativeiro», escreveu o historiador Ronaldo Vainfas.» Essa nova corrente de estudos descobriu personagens bem diferentes dos pares “senhor cruel/escravo rebelde” ou “senhor camarada/escravo submisso”, como se refere o historiador Flávio dos Santos Gomes. Também fez aflorar histórias aparentemente desagradáveis para minorias e movimentos sociais, como as que estão a seguir.
Príncipes africanos vinham estudar no Brasil
No auge de seu poder, o rei africano Kosoko, de Lagos, hoje capital da Nigéria, resolveu dar um presente para três de seus filhos. Mandou-os para uma espécie de intercâmbio estudantil do outro lado do Atlântico, provavelmente de carona num navio negreiro cheio de escravos vendidos pelo pai deles.
Na Bahia, os irmãos ficaram a cargo de um comerciante amigo do rei. Segundo Benjamin Campbell, cônsul inglês em Lagos, os três «foram muito bem tratados na Bahia, como se fossem príncipes». Voltaram para casa em 28 de agosto de 1850, batizados, com nomes cristãos – Simplício, Lourenço e Camílio – e elogiando a hospitalidade dos brasileiros.
Viagens assim não foram raras durante a escravidão. Algumas décadas antes da viagem dos três irmãos, em 1781, o príncipe Guinguin foi carregado por seus súditos «a bordo de um navio português para ser levado ao Brasil, onde foi educado», conta Pierre Verger. «Forneceram-lhe vinte escravos para sua subsistência.»
Quando os escravos tinham olhos azuis
Hoje em dia relacionamos negros a escravos porque a escravidão africana foi a última. Essa relação tem uma história muito recente. Houve um tempo em que escravos lembravam brancos de olhos de azuis.
A própria palavra “escravo” vem de “eslavos”,… povos do leste europeu constantemente submetidos à vontade de germanos e bizantinos na alta Idade Média.
Brancos europeus também foram escravizados por africanos. Entre 1500 e 1800, os reinos árabes do norte da África capturaram de 1 milhão a 1,25 milhão de escravos brancos, a maioria deles do litoral do Mediterrâneo, segundo um estudo do historiador americano Robert Davis, autor do livro «Christian Slaves, Muslim Masters» («Cristãos Escravos, Senhores Muçulmanos»).
Nem sempre os senhores levavam a melhor
Dentro da injustiça essencial da escravidão, havia espaço para relações das mais diversas, bastante influenciadas por situações e personalidades individuais. Muitos exemplos disso saem dos registros policiais do Rio de Janeiro do século 19. A cidade tinha, naquela época, mais escravos do que a Roma antiga.
A proporção de negros surpreendia viajantes que chegavam à cidade. «Se não soubesse que ela fica no Brasil poder-se-ia tomá-la, sem muita imaginação, como uma capital africana, residência de poderoso príncipe negro, na qual passa inteiramente despercebida uma população de forasteiros brancos puros. Tudo parece negro» – escreveu, em 1859, o médico alemão Robert Avé-Lallemant.
Essa multidão impunha respeito aos senhores, que nem sempre levavam a melhor em disputas jurídicas. Em 1872, por exemplo, a escrava Francelina foi acusada de matar sua proprietária por envenenamento. Os vizinhos livres testemunharam a favor dela, dizendo que a moça era muito maltratada pela senhora morta. Francelina foi absolvida pela justiça.
No mesmo ano, vinte negros do comerciante de escravos José Moreira Velludo resolveram espancá-lo até a morte. Não queriam ser vendidos para uma fazenda de café e concluíram que matar seu dono seria o melhor jeito de evitar a mudança. O comerciante sobreviveu à surra por pouco, graças a alguns empregados que espantaram os agressores.
Dias depois, ainda ferido, Velludo foi à delegacia não para acusar os negros que o surraram, e sim para inocentá-los. Como nos últimos anos antes da abolição um escravo era um produto valioso, o traficante queria livrá-los da cadeia para não perder o dinheiro que investira na compra.
Muito além da casa-grande
A imagem mais repetida da escravidão deve ser a do negro sendo chicoteado no pelourinho de uma grande fazenda por um carrasco sádico, enquanto dezenas de outros negros assistem cabisbaixos e, na casa-grande, um poderoso coronel branco dá um pequeno sorriso de satisfação.
Castigos violentos como esses aconteceram em diversos sistemas escravistas. No Brasil eram comuns sobretudo nas grandes plantações de cana-de-açúcar do Nordeste, as plantations descritas pelo sociólogo pernambucano Gilberto Freyre, onde imperava a monocultura dedicada à exportação.
Na mesma região, um outro cenário poderia ser visto. Antes de o sol aparecer, o senhor, seu filho e um escravo, os três pardos ou negros, já estão com a enxada na mão a caminho da roça. Só os três cuidam da pequena plantação de fumo e mandioca, por isso trabalham até o começo da noite. No livro «Um Contraponto Baiano», o historiador americano Bert Barickman defende que cenas assim aconteciam no próprio Recôncavo Baiano, região de grandes plantations de cana-de-açúcar.
Em fazendas de Nazaré das Farinhas, São Gonçalo dos Campos e Santiago do Iguape, em média 59% dos senhores tinham até quatro escravos – apenas 4,5% deles tinham mais de 20 escravos e só 1% mais de 60.
Não se sabe como senhores e escravos viviam nessas pequenas fazendas, mas alguns registros dão uma ideia. O historiador Barickman se baseia na peça de teatro O Juiz de Paz na Roça, criada por Martins Pena em 1838. Na peça, o senhor e seu único escravo trabalham juntos, voltam para casa reclamando do cansaço e jantam lado a lado. O senhor escravista, diz o historiador, «nem na roça, onde empenha uma enxada, nem à mesa de jantar, onde come com as mãos e depois lambe os dedos, poderia se fazer passar por um grande e altivo senhor do tipo descrito por Gilberto Freyre».
Outros flashes
♦ Os mocambos e quilombos, povoados de negros que fugiam da escravidão, também eram muito comuns na África, principalmente no Congo e em Angola.
♦ Não há relatos de que os moradores de Palmares cometessem infanticídio ou canibalismo, mas diversos falam de ataques a camponeses, sequestros de homens e mulheres e ainda de vilarejos fortificados.
♦ Em 1685, na tentativa de fazer um acordo de paz com o quilombo, o rei de Portugal mandou uma mensagem carinhosa para Zumbi. Um trecho: «Convido-vos a assistir em qualquer estância que vos convier, com vossa mulher e vossos filhos, e todos os vossos capitães, livres de qualquer cativeiro ou sujeição, como meus leais e fiéis súditos, sob minha real proteção.»
♦ Um embaixador africano desfrutou tanto dos agrados oficiais que esgotou a paciência do governador da Bahia, Fernando José de Portugal e Castro. «Não foram poucas as impertinências, grosserias e incivilidades que sofri do Embaixador, apesar da afabilidade e atenção com que sempre lhe falava», escreveu o governador, em 1796, ao secretário de Estado de Portugal.
♦ Uma carta de alforria custava cerca de 150 mil réis – o equivalente a uma casa simples na cidade.
♦ O fato de a ex-escrava ter escravos não era motivo de surpresa para os vizinhos. De acordo com o historiador José Roberto Pinto de Góes, os negros somavam três quartos da população livre de Sabará. Em 1830, 43% das casas de negros livres tinham escravos.
♦ Seis grandes rotas ligavam nações ao sul do Saara aos povos árabes do norte. Três saíam do Império de Gana, no oeste da África, rumo ao Marrocos e à Argélia; uma ligava o Chade à Líbia, e outras duas iam, pelo rio Nilo, das terras sudanesas até o Egito.
♦ Enriquecido com a venda de escravos, o reino de Kano tinha uma mesquita central e 21 cidades erguidas a mando do grão-vizir (o ministro do rei), com cerca de mil escravos em cada uma delas.
♦ O escravo português era chamado pelo rei africano de “meu branco” – uma versão oposta do “minha nega”.
♦ Nan Agotiné, a mãe do rei Guezo, do Daomé. Vendida como escrava ao Brasil, ela montou seu próprio reinado em São Luis do Maranhão.
♦ Em 1787, um boicote dos abolicionistas ingleses ao açúcar feito por escravos conseguiu que 300 mil pessoas deixassem de consumi-lo na Inglaterra.
♦ Ainda mais fora de sintonia é a ideia de que os ingleses interromperam o tráfico de escravos para criar um mercado consumidor na América. Mesmo naquela época, era um pouco difícil para os empresários montar ações que trariam lucro apenas um século depois.
♦ Se a Inglaterra conseguiu acabar com o tráfico pelo Atlântico, a escravidâo durou muito mais em outros pontos da África. Em Serra Leoa, os escravos só foram libertados em 1928, e apenas em 1950 no Sudão. Na Mauritânia, república islâmica ao sul do Marrocos, seguiu até 1980. Ilegalmente, é praticada no país ainda hoje.![]()
Leandro Narloch
Créditos e o livro a ler: Este post é parte do capítulo «Agradeçam aos Ingleses», do livro «Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil», da autoria de Leandro Narloch (Leya/Textos Editores Ltda.).
Imagens: geografia.seed.pr.gov.br
; historia211.ning.com; e infojoia.com.br.

