James Cameron, o “exterminador” da Amazônia

Uma certa pessoa, dias atrás, me perguntou, através de e-mail, sobre a questão de Belo Monte:

«Você disse que no fundo é uma questão indigenista. Eles estariam manipulados pelo lobby de ONG’s estrangeiras? Inclusive as que tentaram impedir o leilão?»

Minha resposta:

O que é que vc acha? Obviamente que sim! E não é de hoje, isso acontece desde o chamado “Encontro de Altamira”, 30 anos atrás.
E como se não bastassem as ONGs, ainda temos artistas de cinema, como Sigouney Weaver e seu diretor Cameron (do filme Avatar), que têm o topete de dar palpites sobre Belo Monte. Isso é um insulto, um desrespeito, à soberania brasileira! Com que direito esses indivíduos podem, impunemente, se intrometer na vida do nosso país? – e com uma prepotência, uma arrogância de estarrecer, como se eles fossem autoridades para tanto! Por acaso nós criticamos os projetos norteamericanos – apesar de sabermos que eles praticamente acabaram com as suas florestas e chacinaram seus índios? Que moral eles têm para ficar nos criticando? Nenhuma! Eles não têm nada que se meter na nossa vida! Isso é uma audácia, uma impertinência, um abuso! Dá vontade de mandar esses caras para onde?
Desculpe a revolta, mas considero essas pessoas inimigas do Brasil. Pois também sei que eles são parte do sistema oligárquico angloamericano que não quer ver o desenvolvimento do Brasil, que não quer que o Brasil faça concorrência aos produtores norteamericanos etc etc. O desenvolvimento da Amazônia (que será proporcionado por Belo Monte), simplesmente, apavora aqueles caras… É muito fácil de entender, não?
Pois é isso. Tais Iniciativas foram (e são) lideradas pelo WWF e seu braço indigenista, a Cultural Survival, e outras, tais como a Friends of the Earth (Amigos da Terra) etc etc etc, além de ONGs “brasileiras” (de fachada, mas mantidas por países estrangeiros).




James Cameron, o “exterminador” da Amazônia

Indiscutivelmente, o evento mais pitoresco da semana passada no campo ambientalista foi o Fórum Internacional de Sustentabilidade, o ruidoso convescote realizado em Manaus (AM), em 26 e 27 de março. Seu objetivo ostensivo foi reforçar o argumento da vinculação entre a conservação da Floresta Amazônica e o clima global, abrindo caminho para os lucrativos esquemas financeiros envolvendo os chamados “créditos de carbono”. A Carta do Amazonas, adotada como o manifesto do encontro, é explícita:

«A conservação das florestas tropicais, em especial da Floresta Amazônica, é essencial ao bem estar da sociedade global não só pelos serviços ambientais que fornecem, como a regulagem de ciclos climáticos e hidrológicos, como também pelo seu valor espiritual… Se a Floresta Amazônica provê serviços ambientais para todo o planeta, é dever da sociedade mundial contribuir para a sua manutenção.»


Al Gore & cia. atacam novamente

A visibilidade midiática do convescote foi assegurada pela participação de duas superestrelas internacionais, o ubíquo e versátil Al Gore e o celebrado cineasta canadense James Cameron, diretor das duas maiores bilheterias da história de Hollywood, Titanic e Avatar. A presença de Al Gore (que cobra 170 mil dólares por palestra, mais despesas de viagem) ainda se entende, por conta da sua imagem como grande paladino do “aquecimento global”. Mas a de Cameron só se justifica, além da intenção de pegar carona no sucesso de Avatar, por uma velha propensão brasileira a um colonialismo mental que considera irresistível a proximidade com personalidades estrangeiras, sejam do meio artístico, acadêmico, político ou empresarial.


Cameron se mete onde não é chamado…

Não obstante o fato de se desconhecer em Cameron qualquer conhecimento específico que possa significar uma contribuição a discussões sérias sobre a Amazônia, os organizadores do evento não se decepcionaram, pois o talentoso cineasta demonstrou uma insuspeitada capacidade de aprendizado instantâneo. Depois de visitar a área no rio Xingu onde será construída a usina hidrelétrica de Belo Monte, levado pela ONG Amazon Watch, ele anunciou a intenção de lançar uma campanha internacional contra o projeto. Para começar, pretende encaminhar uma carta ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva:

«Não sei se ele vai ler, mas eu vou enviá-la. Visitei os moradores afetados por essa obra e vi o quanto eles serão prejudicados. O que puder fazer por aquelas pessoas, eu farei. Recebi cartas de líderes indígenas e ONGs que pediram apoio. Cheguei à conclusão [de que a usina] não tem condições de ser construída como está sendo» (O Globo, 1º./04/2010) [grifos nossos].

Cameron também disse que pretende retornar ao Brasil em 20 dias, «para acompanhar a abertura da licitação para a construção da hidrelétrica» (O Estado de S. Paulo, 1º./04/2010).


Mas não levou fácil

Pelo menos um comentarista fez o dever de casa e não se deixou deslumbrar pelos holofotes focados no novo especialista em assuntos amazônicos. No Monitor Mercantil de 30 de março, o jornalista Sérgio Barreto Motta deu à sua coluna diária o título «James Cameron Almeja Exterminar o Futuro do Brasil». Sem poupar palavras, Motta bateu duro:

(…) «E essa estrela internacional, colecionador de prêmios, vem a seminário em Manaus, trazer a mensagem de que a usina de Belo Monte faz mal ao planeta. Esse tipo de advertência fortalece a crença de alguns autores de que a meta do movimento ecológico é simplesmente a de manter o status quo na economia mundial… Os ditos ecologistas defendem a tese de que não se pode poluir mais, porém quem já poluiu e está no grupo de elite, pode ficar por lá. O que se esperaria de Cameron seria um elogio ao Brasil, por usar pouco carvão e petróleo para gerar energia, ou talvez uma sugestão à Eletrobras para que, nas usinas de Santo Antônio, Jirau e Belo Monte, adotasse eclusas para permitir a passagem de barcos, estimulando o meio mais limpo de transporte, que é a navegação fluvial.»

(…) «Por desconhecimento, estrelismo ou por ser ponta de lança da ideologia do primeiro mundo, James Cameron, sob a capa conservacionista do seu filme Avatar, na realidade atua como uma espécie de exterminador do futuro, tentando fazer com que projetos fantásticos, como Belo Monte, naufraguem como um Titanic… (e) tenta impedir o Brasil de gerar energia, para mudar o quadro de pobreza do país.»

Lástima que raros colegas de Motta demonstrem essa percepção dos fatos.

Movimento Solidariedade Íbero-americana

 

 

Créditos: este post é matéria apresentada no Boletim Eletrônico MSIa INFORMA, do MSIa – Movimento de Solidariedade Íbero-americana, nº 64, de 01/04/2010. Introduzi subtítulos no texto para facilitar e incentivar a leitura.

MSIa INFORMA é uma publicação do Movimento de Solidariedade Ibero-americana (MSIa). Conselho editorial: Angel Palacios, Geraldo Luís Lino, Lorenzo Carrasco (Presidente), Marivilia Carrasco, Nilder Costa e Silvia Palacios. Endereço: Rua México, 31 – sala 202 – Rio de Janeiro (RJ) – CEP 20031-144; Telefax: 0xx 21-2532-4086.

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Imagem: vooz.com.br

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