Lula, o cara globalizado

Nunca há nada de ingênuo numa declaração (mesmo que pareça expontânea) de um presidente de um país, mormente dos EUA. «O cara», com o que Obama tratou Luis Inácio da Silva foi proposital, não só com o intuito de massagear o ego de nosso vaidoso presidente, como para colocá-lo em vanguarda perante demais países em desenvolvimento, como por exemolo, os BRICs. Assim, Obama diz para os outros que eles devem se comportar bem, como Luis Inácio, de acordo com as regras do jogo, “conversar” com ele, Obama, e com os demais organismos de poder e de controle mundial. Pode até ser que Luis Inácio tenha pensado: «se eu não posso lutar contra esse inimigo, junto-me a ele…» Talvez isso seja inteligente, e parece que Luis Inácio está tentando fazer isso mesmo, embora, de vez em quando, nosso presidente pareça não andar muito de acordo com os “preceitos e regras” internacionais – honra seja feita – como hoje, através da OMC, peitando o protecionismo norteamericano. Enfim, vamos ver no que é que dá isso tudo…

Este post é matéria apresentada no boletim eletrônico do MSIa – Movimento Solidariedade Íbero-americana, nº 14, de 03/06/2009. Os subtítulos foram acrescentados por mim para melhor leitura do texto. Eis o texto.



Lula, o “cara globalizado”

Entre uma reunião e outra da cúpula do G-20 em Londres, em abril último, o presidente estadunidense Barack Obama tratou familiarmente seu colega brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva com a expressão que deu a volta ao mundo: «Este é o cara». Embora tenha sido, geralmente, interpretada como uma expressão do caráter espontâneo de Obama, ela se assemelha mais a uma adulação de boas-vindas a Lula, para compartilhar reuniões sociais com o seleto clube do poder mundial. Como se sabe, a cúpula não produziu qualquer iniciativa concreta e a crise sistêmica continua sem controle, a despeito de algumas avaliações ilusórias de que o pior já teria passado.


Disfarçando a globalização

Desde então, a presença de Lula no cenário internacional deu outros passos. O seu estilo de governo é agora devidamente promovido pelo establishment anglo-americano como um modelo ideal para a preservação do status quo: um esquerdismo que respeita as “regras do jogo” impostas pela alta finança a todo o orbe, ao mesmo tempo em que amortiza os devastadores efeitos da globalização, evitando explosões sociais com vastos programas de assistencialismo social. No caso de Lula, tal esquema tem mantido em alta a sua popularidade entre os setores mais pobres da população, beneficiados com o programa Bolsa Família.


O esquema em outros países e o PT

A primeira “exportação” do modelo foi feita ao Paraguai, onde o presidente Fernando Lugo, oriundo das hostes da “Teologia da Libertação”, o adotou de braços abertos. A área econômica de seu governo foi entregue a reconhecidos monetaristas e a social, à militância de esquerda. A implantação mais recente se deu em El Salvador, onde pela primeira vez na história um candidato da Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN), o antigo grupo guerrilheiro convertido à política partidária, venceu uma eleição presidencial: no caso, Mauricio Funes, casado com uma brasileira ligada à cúpula do PT.

O Partido dos Trabalhadores proporcionou uma assessoria direta à campanha de Funes; primeiro, “limpando” a sua imagem, na linguagem petista, fazendo-o «sentar-se para negociar com a direita», para o que Funes se comprometeu mediante uma carta aberta a respeitar as regras e os acordos financeiros internacionais. Manobra idêntica à «Carta aos Brasileiros», com a qual Lula abriu caminho para a Presidência em 2002.


O neoliberalismo atuando por trás

Por sua vez, Funes também preencheu o seu gabinete com economistas neoliberais, enquanto recebia lições intensivas sobre os programas assistenciais do governo petista (por conta dessa inclinação neoliberal, adversários estão chamando a FMLN de «FMINacional»).

Fora do continente, ninguém menos que o Financial Times londrino tem estimulado o binômio neoliberalismo-assistencialismo, desta feita, para a África do Sul. Em um artigo publicado em 25 de maio, o editor Richard Lapper lançou um violento ataque ao novo presidente sul-africano, Jacob Zuma, de quem se teme que possa se inclinar ao “populismo” – eufemismo para profundas reformas nacionais – recomendando-lhe ser melhor seguir os passos de seu colega brasileiro. «Zuma deveria tomar lições políticas com o defensor brasileiro dos pobres», diz ele.

O artigo compara a situação atual da África do Sul «aos tumultuados meses que antecederam a primeira vitória do presidente brasileiro, em 2002» – ou seja, o período em que Lula se comprometeu a respeitar o poder financeiro mundial. Apesar de tudo, afirma, Lula conduziu o Brasil «para o período de relativa estabilidade que vive hoje».


Só tem vez quem entra no jogo

Tal perspectiva é apoiada plenamente por um dos principais aliados de Zuma e de Nelson Mandela, o escritor e ativista político Mac Maharaj (que compartilhou com Mandela 12 dos seus 27 anos de prisão). Em uma entrevista publicada n’O Estado de S. Paulo de 31 de maio, além de apoiar as recomendações britânicas, o veterano militante do Congresso Nacional Africano (CNA) disse ter muitas esperanças nas relações Brasil-África do Sul, «que, com o apoio da Índia, China e outros emergentes, podem começar a mudar as regras econômicas do mundo».

Com a ressalva de que, para existir tal mudança de rumo, a primeira coisa que o Brasil e a África do Sul deveriam fazer seria deixar de lado tais acordos com a alta finança “globalizada”, sem o que se estará falando de um mundo multipolar à moda anglo-americana, protagonizado pelos “caras”. Por enquanto, o que se percebe é que a rédeas do poder mundial somente se afrouxam e abrem espaços a quem se dispõe a fazer pactos com o sistema financeiro mundial, apesar do seu desmantelamento, independentemente do verniz ideológico que cubra tais governos.


Para saber mais sobre o tema, visitar os sites da MSIa/Capax Dei:

http://www.alerta.inf.br/ e http://www.msia.org.br/

Imagens: chicopianco.files.wordpress.com; e blog.tiago.art.br.

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