Mãe África II – De volta à África
Este outro artigo, também de autoria de Silio Boccanera, é uma resposta do autor, em decorrência do artigo anterior, que provocou muita reclamação por parte da comunidade afro-descendente. Mas pelo jeito, a coisa por lá, em África, não mudou muito… ![]()
Volta à África
Em resposta a e-mail de leitores, que questionaram a motivação de se escrever uma coluna (em 07/12/97) descrevendo a participação de negros na escravidão de outros africanos, vale esclarecer que o artigo não tinha outro objetivo senão registrar um fato histórico, divulgado pela televisão britânica, resultado de pesquisas sociais sérias, embora incômodas para os que só aceitavam verdades politicamente corretas da realidade.
O que a coluna recente contava era que, conforme documentação e relato de professores africanos especializados mostrados no documentário, o comércio de escravos era tradição na África antes da chegada dos brancos e continuou a existir, internamente, quando os europeus proibiram o tráfico. Mais ainda, durante os horrores da exploração branca, africanos livres participaram ativamente no negócio.
Não existe racismo nessa constatação. Trata-se apenas da correção de um mito, como a suposta inexistência de racismo no Brasil.
Constatando a realidade africana – hoje
Trata-se da mesma busca da verdade histórica que levou cientistas a provar há alguns meses, com base em estudos de DNA, que o mítico Jardim do Éden, onde surgiu Adão, não teria sido no Oriente Médio, como sugere a Bíblia, e sim na África, pois de lá a espécie humana saiu para outros continentes.
Aos praticantes da linha ortodoxa e purificada da história da escravidão, onde só o colonizador branco aparece como vilão, recomenda-se como antídoto não apenas o programa citado da BBC, mas também o recém-lançado livro do jornalista americano (negro e ativista nos movimentos raciais de seu país) Keith Richburg: «Out of America: a Black Man Confronts Africa» – literalmente traduzido como «Saindo da América: Um Negro Confronta a África».
A visão dos ativistas negros é falsa
Ex correspondente do jornal The Washington Post na África, com base em Nairobi, e atualmente cobrindo a Ásia para o mesmo diário, Richburg relata no livro seu confronto de afro-americano com a realidade africana, os massacres e o genocídio entre várias etnias, visão bem diferente daquela idealizada por seus companheiros de ativismo nos estados Unidos. E oposta ao que ele estudou na universidade em cursos especializados: «Meus ancestrais vieram desse lugar e estes (os habitantes atuais) são meus primos distantes. Mas existe algo que até me envergonha admitir: tenho horror da África. Não quero pertencer a isso. No fundo do coração, estou discretamente celebrando a saída do meu ancestral que escapou desse continente.»
E já prevendo a cobrança politicamente correta de seus ex-companheiros de militância no movimento negro de Detroit, onde foi criado: «Venha me falar de África, de minhas raízes negras e de meu parentesco com meus irmãos africanos, e jogo isso de voltas na sua cara, esfrego seu nariz nas imagens de carne humana apodrecendo. Estou cansado de mentir.»
Silio Boccanera
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Créditos: este é artigo publicado no O Globo, em 01/02/1998, da autoria de Silio Boccanera. Subtítulos foram por mim acrescentados para facilitar a leitura do texto.
Imagem: insoniaseafins.blogspot.com.![]()

