Mãe África I – Servidão oculta

Este artigo foi muito criticado pelos “politicamente corretos”, os quais, em relação ao tema (a escravidão de negros africanos), insistem em que a culpa do tráfico de escravos seja apenas atribuída ao homem branco, sem levar em consideração a colaboração explícita dos próprios africanos, os quais, muitos deles, enriqueceram com a escravidão, e que, pelos hipócritas “afro-descendentes”, são considerados uns coitadinhos. Esta atitude leva ao revanchismo e acirra o sentimento racista – o que é, nos dias de hoje, completamente dispensável. A não ser para os insufladores de movimentos separatistas baseados na raça (como se faz, igualmente, com os índios – o indigenismo) dentro da união federativa brasileira.

 

Servidão oculta

Na semana em que o presidente Fernando Henrique Cardoso leva um puxão de orelhas da organização Anti-Escravidão Internacional em Londres por não empenhar mais seu Governo no combate à servidão humana no Brasil, a televisão pública britânica, a BBC, exibe um documentário devastador, com detalhes embaraçosos sobre a participação dos negros na escravização de outros africanos, sem envolvimento do colonizador branco.

 

Antes dos brancos, já havia escravidão na África

A British Broadcasting Corporation mostra que os horrores da escravidão na África começaram antes e prosseguiran depois da intervenção dos europeus, porque as tribos africanas já praticavam intenso comércio de escravos e colaboraram ativamente na captura e remessa de 12 milhões de negros para servir como escravos nas Américas.

Com a profundidade habitual em programas desse gênero e sem concessões ao loby do politicamente correto, a BBC dedicou uma hora ao programa, que suas equipes gravaram em Gana e no Benin, expondo como os africanos já abusavam da servidão humana antes da chegada dos brancos.

As fontes para as revelações incluem não apenas documentos, mas também depoimentos de líderes tribais, descendentes ainda vivos de escravos e feitores, além de professores das universidades de Gana, do Benin, de Toronto e de Stirling (esta na Escócia).

 

Não seria possível o tráfico sem a colaboração dos próprios negros

«Houve um envolvimento profundo dos africanos no tráfico (de escravos negros)» – diz em entrevista o professor Elisée Soumonni, da Universidade Nacional do Benin.

«Era impossível para os europeus levar os escravos sem colaboração interna.»

De fato, explicam os professores africanos especializados no assunto, o branco europeu tinha pavor de deixar o litoral ou até desembarcar dos navios e avançar para longe da costa, a fim de capturar escravos. As vítimas eram trazidas a eles pelos próprios africanos, que as adquiriam em tradicionais mercados desse tipo pelo interior do continente.

 

Uma nova clientela: os brancos

Assim, o antigo comércio de escravos entre diferentes tribos africanas apenas incorporou como novos compradores os clientes brancos, que ofereciam rum, açúcar e armas de fogo, em troca de ouro, marfim e servos. Dez anos após a chegada de Cristóvão Colombo às Américas, os espanhóis já desembarcavam a primeira leva de escravos africanos no Novo Mundo.

O documentário da televisão britânica mostra um grupo de turistas afro-americanos de visita a Gana, em busca de suas raízes, ouvindo em estado de choque o guia local desfazer idéias preconcebidas sobre a responsabilidade exclusiva dos brancos nos maus tratos aos escravos e falar da efetiva colaboração africana na escravização de outros negros.

«É difícil contar esa parte de nossa história e mais duro ainda acreditar nela.» – diz o guia.

Quando os brancos chegaram, explicam os especialistas, passaram a depender totalmente dos chefes negros locais para o comércio de mercadorias e de gente. A comunidade negra local não-escrava prestava serviço aos brancos, organizando contatos, transporte, controle. Alguns filhos negros desses comerciantes locais de escravos foram estudar na Europa e voltaram mais treinados para ajudar no tráfico.

«Muitos escravos voltaram das Américas – explica Martine – e juntaram-se ao comércio, oprimindo outros negros, como se tivessem se esquecido dos horrores por que passaram.»


Além da escravidão, sacrifícios humanos e poligamia

Em tribos africanas onde havia sacrifícios humanos, escravos pagavam um alto preço. Numa delas, um rei costumava executar dois escravos toda manhã, em agradecimento pela noite bem dormida. Outros chefes decapitavam regularmente as suas vítimas. Mulheres escravas eram às vezes crucuficadas para fazer parar a chuva. Tudo isso, envolvia apenas negros contra negros.

Entrevistada em Benin, onde vive, Martine de Souza, descendente do rico traficante brasileiro de escravos Francisco Feliz de Souza, conta que seu ancestral teve 40 mulheres, todas negras, e 90 filhos homens (ninguém contou o número de filhas). Os dois filhos mais velhos, negros, dirigiam a empresa familiar, negociando escravos na ausência do pai.

 

 

Africanos protestaram a favor da manutenção do tráfico

Aos poucos o comércio de escravos dominou a economia da costa ocidental africana. Quando vários países europeus aboliram o tráfico, no início do século passado (século 19), líderes africanos protestaram por escrito contra a decisão.

Mesmo depois de os brancos terem sido afastados, o comércio interno de escravos na África não se interrompeu e continuou ativo até o início deste século (século 20).

Esses fatos não justificam os horrores e o barbarismo impostos pelos brancos aos escravos capturados na África, mas certamente ajudam a desfazer mitos e distorções propagados por versões históricas politicamente corretas, mas distantes da realidade.

Silio Boccanera

Créditos: artigo publicado no jornal O Globo, em 07/12/1997, de autoria de Silio Boccanera. Subtítulos foram inseridos por mim para facilitar a leitura do texto.

Imagem: www.curado.com.

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