Mais divergências sobre a Rio+20

Conforme se aproxima a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, as divergências quanto aos objetivos do evento vão ganhando relevo. Até mesmo as definições de expressões rotineiras na linguagem ambientalista estão servindo como combustível para discussões. Um exemplo desses desencontros pode ser visto durante a visita ao Brasil do secretário-geral da conferência, Sha Zukang, cujas diferenças de posições com a ministra do Meio Ambiente Izabella Teixeira ficaram evidenciadas.

Por um lado, a ministra afirma que o Rio+20 não será uma reedição da conferência Rio-92 – que, há 20 anos, colocou a agenda ambiental no primeiro plano das relações internacionais. Do outro, o secretário-geral queixa-se da falta de “objetivos” e reconhece que há grandes disparidades entre o que o governo brasileiro e a ONU entendem sobre “desenvolvimento sustentável”.

Em audiência realizada no Senado, no último dia 29 de fevereiro, Izabella Teixeira afirmou:

«Não se trata de voltar ao passado, de rever documentos acordados. A Rio+20 não está modelada na Eco-92, mas no desenvolvimento sustentável a partir de duas mensagens-chave: economia verde e governança de modo sustentável» (Agência Brasil, 1°./03/2012).

Além disso, a ministra ressaltou que faz-se necessário definir claramente os termos do debate que será travado na Conferência:

«Falta discutir se a economia verde leva à inclusão social, se realmente permite a geração de empregos. Não se coloca com clareza, também, se os países desenvolvidos estão, de fato, dispostos a transferir tecnologia.»

Outro aspecto destacado foi a falta de consenso a respeito do formato de reestruturação do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), fundado há 40 anos:

«O que se discute é o fortalecimento do PNUMA… O programa ganharia contornos de uma agência internacional, mas ainda não há consenso quanto a isso.»

Na contramão da ministra, Sha Zukang, que veio ao Brasil para acompanhar de perto os preparativos para a conferência, se queixou da falta de objetivos claros para o evento, fazendo eco das críticas do movimento ambientalista em geral. Segundo ele, «é urgente definir um conjunto de objetivos para garantir o sucesso da conferência» (O Globo, 5/03/2012).

Ao comentar os desafios ambientais do planeta, Zukang recorreu ao surrado chavão ambientalista:

«Se todos os países emergentes, como Brasil, China e Índia, por exemplo, decidirem copiar o estilo de vida dos países desenvolvidos, seriam necessários cinco planetas Terra para atender a todo esse aumento de demanda… Os recursos naturais estão dando sinais de escassez, enquanto a população mundial não pára de crescer.»

Falando sobre o esforço para se definir o que é “economia verde”, Zukang reconheceu a falta de um significado claro e objetivo, que seja reconhecido por todos os participantes:

«Temos um debate sobre a definição. Não há uma definição clara. Pessoas diferentes têm visões diferentes… A economia verde pode permitir a criação de postos de trabalho e tem o potencial de integrar os três pilares: econômico, social e ambiental. Mas a verdade é que atualmente muitos países praticam a economia verde. No meu país, fizemos uma legislação específica.»

Todavia, Zukang considera que o maior problema para se estabelecerem os “objetivos” ambientais na conferência é a crise econômica nos países ricos, que são os principais financiadores dos programas de proteção ambiental:

«E para piorar ainda mais a situação, esses países estão, nesse momento, preocupados com as eleições nos seus próprios países. E são justamente os países da zona do euro os maiores doadores. E como a transição para uma economia de baixo carbono necessita de recursos financeiros, temos um problema.»

Diante de tal quadro adverso à assinatura de compromissos entre os países participantes, Zukang cobra maiores responsabilidades dos países em desenvolvimento:

«Todos temos responsabilidades comuns. Deixe-me também enfatizar que a sustentabilidade deve ser uma responsabilidade do país. Nenhum país deve depender apenas da ajuda dos países desenvolvidos.»

Tais divergências são sintomáticas das pressões que os interesses que controlam o aparato ambientalista internacional deverão exercer, para tentar influenciar as conclusões da conferência de acordo com as suas diretrizes antidesenvolvimentistas. Por sua vez, cabe ao Brasil sustentar a interessante posição pró-desenvolvimento que tem demonstrado nesta reta final da preparação do evento, a qual demonstra uma saudável evolução na percepção da dimensão real dos problemas ambientais e de desenvolvimento.

Movimento de Solidariedade Íbero-americana

 

Créditos este post é matéria apresentada no Boletim Eletrônico MSIa INFORMA, do MSIa – Movimento de Solidariedade Íbero-americana, Vol. III, No 40, de 09 de março de 2012.

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Comentários

1 comentário em “Mais divergências sobre a Rio+20”
  1. Concordo com o Secretário Geral Sha Zukang
    «Todos temos responsabilidades comuns, a sustentabilidade deve ser uma responsabilidade do país e nenhum país deve depender apenas da ajuda dos países desenvolvidos.»
    Para mim a RIO+20 = (igual a) Responsabilidade Individual (cada um de nós) + Comprometimento Coletivo (todos os países, seus habitantes com suas próprias vidas em busca do bem comum).
    Claudia Martins, autora do Projeto RECICLA TECIDO, reciclando tecidos refazendo vidas.

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