“Modernização autoritária”: uma avaliação sobre o futuro da Rússia

No final de 2012, enquanto a mídia ocidental concentrava as atenções nas manifestações organizadas pela chamada oposição russa, o ex-premier eslovaco Ján Carnogurský proporcionou uma sóbria avaliação sobre a orientação estratégica da Federação Russa, um dos elementos que terá importância crucial para os desdobramentos da crise global. Em vista da piora das relações entre a Rússia e a União Europeia (UE), Carnogurský antevê uma guinada russa, afastando-se da UE e privilegiando a configuração de uma União Eurasiática, englobando as nações que formavam a extinta URSS.

Carnogurský é um dos poucos especialistas em assuntos russos do Leste Europeu regularmente convidados a participar dos debates anuais do chamado Clube Valdai, um fórum informal de discussões organizado desde 2004 pela agência Novosti e o Conselho Russo de Política Externa e de Segurança. Com frequência, os seus 40 integrantes, recrutados entre especialistas ocidentais e orientais, têm a oportunidade de se reunir com o presidente Dmitri Medvedev e o premier Vladimir Putin, bem como outros altos funcionários governamentais russos, com os quais abarcam temas relevantes para a formulação de estratégias do Kremlin.

A avaliação de Carnogurský se torna ainda mais relevante, no contexto da longa entrevista de Putin na televisão russa, em 15 de dezembro, na qual o premier respondeu perguntas de convidados e telespectadores, durante quatro horas e meia. Na ocasião, um dos temas centrais foram as eleições parlamentares de 4 de dezembro e as manifestações populares contra a sua legalidade. Ao mesmo tempo em que admitiu a existência de deficiências na estrutura de poder político do país e reconheceu a validade de certas críticas, Putin afirmou que parte dos protestos representava uma intervenção externa com propósitos desestabilizadores quanto à sociedade russa.

Sobre a posição internacional da Rússia, Putin lembrou que os EUA ainda seguem uma “lógica da Guerra Fria”, acreditando que a Rússia poderia tornar-se um leal aliado, uma vez que abrisse mão do seu potencial nuclear. Em paralelo, enfatizou a importância de um melhor entendimento com a UE e o papel russo na criação de uma União Eurasiática.

 

Valdai 2011

Nos trabalhos do Clube Valdai, em 2011, segundo Carnogurský, foram discutidos cinco diferentes cenários que determinarão o futuro desenvolvimento da Rússia. O primeiro pressupõe a preservação do presente status quo do país. O segundo prevê uma “modernização autoritária” como um modelo de desenvolvimento realista. O terceiro e o quarto pressupoem a possibilidade de reformas liberal-democráticas, nos moldes da perestroika (abertura) soviética. E o quinto contempla a possibilidade de um “regime autoritário” de linha dura.

Para Carnogurský, o cenário mais provável é o da “modernização autoritária”, acompanhada por reformas econômicas e políticas. Durante as discussões, disse ele, vários dos russos presentes enfatizaram que o “centro de gravidade das relações Leste-Oeste” está se desviando cada vez mais para o Leste. Em suas palavras, “para Moscou, a independência da Rússia e a sua insistência na liberdade de tomar decisões sobre questões estratégicas são essenciais. É por isso que, no momento, a Rússia está se orientando cada vez mais para o Leste do que para o Ocidente. O modelo ocidental de sociedade está perdendo os seus atrativos e a Rússia apenas estará disposta a se abrir ao Ocidente, na medida em que o Ocidente esteja disposto a se abrir à Rússia. Do ponto de vista russo, as relações bilaterais com alguns Estados europeus, como a Alemanha e a Itália, são mais importantes do que as relações com a UE”.

De acordo com ele, a “era pós-soviética” chegou ao fim. No momento, o relevante não é analisar o passado da Rússia, mas perguntar que papel a Rússia pode e deverá desempenhar no mundo futuro. A UE é um fator-chave, que tem contribuído para a insegurança russa, e tais questões não podem ser resolvidas “de forma cosmética”. Neste quadro, o desenvolvimento da União Eurasiática “é uma tentativa de apresentar um conceito estratégico realista das relações Leste-Oeste entre a Rússia e a UE”.

Na visão de Carnogurský, o futuro será crescentemente delineado pela cooperação entre a União Eurasiática e a UE, por meio de negociações e tratados, que contribuirão para a integração do continente europeu como um todo. “Para a Rússia, essa orientação para a Ásia não é uma decisão de civilização, mas uma necessidade política, que dá à Rússia a oportunidade de desempenhar um papel adequado na política mundial”, afirma.

No fórum de Valdai, Putin discutiu a sua visão da União Eurasiática, que concebe como uma união econômica com uma territorialidade maior que a UE e orientada tanto para o bloco europeu como para a China. Não obstante, o premier ressaltou que a “piora” das relações com a UE está forçando uma reorientação para o continente asiático, em particular, a China, o que inclui a possibilidade do redirecionamento dos fornecimentos energéticos – a “diplomacia dos gasodutos”, que Moscou tem praticado com maestria.

Comentando a reação da elite política russa diante da crise econômico-financeira global, em particular, da Europa, Carnogurský destacou que, para a Rússia, o desenvolvimento de sua economia física é mais importante que salvar o sistema bancário. Segundo ele, embora o país tenha sido fortemente afetado pela crise financeira global, o impacto não foi semelhante ao ocorrido no Ocidente.

 

As advertências de Medvedev não devem ser subestimadas

A propósito do discurso do presidente Medvedev em meados de novembro, no qual advertiu sobre as possíveis consequências da insistência dos EUA em instalar um sistema de defesa antimísseis na Europa, Carnogurský enfatizou que tais advertências não devem ser subestimadas: “A Rússia dá uma grande importância ao sistema antimísseis, que deve ser posicionado em torno do país. Do ponto de vista russo, o equilíbrio entre a Rússia e o Ocidente está sendo perturbado e eles não tolerarão isto. Se os planos prosseguirem, a Rússia instalará os seus próprios mísseis e intensificará a cooperação com a China e outros estados asiáticos. Possivelmente, isto poderá ocorrer com o apoio de vários grupos asiáticos que resistem à influência ocidental.”

A propósito de uma nova visão para a Europa, Carnogurský afirmou que, no Clube Valdai, houve intensas discussões a respeito de uma futura configuração europeia. Na visão mais otimista, uma nova Europa funcionaria como uma união política e econômica capaz de confrontar os futuros desafios globais. Ao mesmo tempo, ele deixou claro que a Europa deveria deixar de ver a Rússia como um sócio minoritário: “A Europa deve decidir se quer negociar com a Rússia ou a União Eurasiática como um ‘parceiro igual’, ou não. A Europa deveria parar de tentar impor à Rússia o seu modelo de sociedade.”

Elisabeth Hellenbroich, de Wiesbaden
Movimento de Solidariedade Íbero-americana

Créditos este post é matéria apresentada no Boletim Eletrônico MSIa INFORMA, do MSIa – Movimento de Solidariedade Íbero-americana, Vol. III, No 33, de 12 de janeiro de 2012. Subtítulos meus.

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