O duplo naufrágio da BP no Golfo do México

A explosão da plataforma petrolífera Deepwater Horizon no Golfo do México, ocorrida em 20 de abril último, seguida do colossal e ainda não contido vazamento de petróleo da perfuração danificada, é duplamente emblemática. Primeiro, porque a empresa responsável pelo poço, a BP, é um dos maiores ícones das velhas práticas coloniais do Império Britânico e ajudou a costurar o quadro de instabilidade geopolítica permanente na região do Oriente Médio.


ONGs ambientalistas caladas…

Segundo, por mostrar os vínculos diretos da cúpula do establishment anglo-americano com o movimento ambientalista internacional e suas principais ONGs – instrumentos reciclados dos velhos métodos coloniais, voltados para o controle de recursos naturais estratégicos, especialmente energéticos. Neste particular, a total ausência de manifestações das grandes ONGs a respeito do acidente é uma clara indicação desse cruzamento de interesses.


Quem é a BP – British Petroleum

Criada há um século, como Anglo-Persian Oil Company (depois Anglo-Iranian), a BP detinha o virtual monopólio da exploração de petróleo no Irã até 1951, quando foi nacionalizada pelo governo do primeiro-ministro Mohammad Mossadegh. Reagindo ao que considerou um insulto inaceitável, Londres recorreu a Washington para derrubar Mossadegh, em 1953, na primeira de uma longa série de intervenções políticas diretas da inteligência anglo-americana contra regimes nacionalistas que buscavam colocar os recursos naturais nacionais a serviço de suas sociedades, em vez de limitar-se a gerar lucros para as grandes transnacionais britânicas e estadunidenses.

Em um discurso perante o Conselho de Segurança das Nações Unidas, em outubro de 1951, o próprio Mossadegh sintetizou a atuação da Anglo-Iranian em seu país:

«Desnecessário dizer que, enquanto uma companhia como a antiga Anglo-Iranian Oil Company teve um monopólio sobre essa fonte de riqueza, o governo e o povo do Irã não podiam desfrutar de independência política. A despeito da sua fachada empresarial, essa companhia deve ser considerada como a equivalente moderna da velha Companhia das Índias Orientais, que em um curto período estendeu o seu controle sobre a Índia. A antiga Anglo-Iranian Oil Company tinha uma receita anual que excedia a do governo iraniano; o mesmo valia para as suas importações e exportações; ela intervinha ativamente nos assuntos internos do país e jogava o seu peso nas eleições dos Majlis [assembleias legislativas] e na formação de gabinetes, agindo de uma maneira calculada para obter os maiores lucros dos recursos sob seu controle. Por meio de uma complexa rede organizativa no país, pela corrupção de ministros de governo e o apoio ilegal a jornalistas e políticos nativos, ela criou de fato um Estado dentro do Estado e, pouco a pouco, minava a independência da nação iraniana.»


Privilégios da BP = menor segurança

Por ironia, ecos das palavras de Mossadegh puderam ser ouvidos nas semanas decorridas desde a explosão no Golfo do México, com as revelações sobre a promiscuidade constatada entre a indústria petrolífera, BP inclusive, e o órgão responsável pela regulamentação e supervisão das atividades petrolíferas nos EUA, o Minerals Management Service (MMS), que contribuíram para a demissão da diretora-geral da agência, Elizabeth Birnbaum. Entre outros aspectos, os requisitos de segurança estabelecidos pelo MMS para a exploração petrolífera offshore, menos exigentes que os de outros países que exploram petróleo em águas profundas, como o Canadá, Noruega e Brasil, refletiam muito mais os interesses das empresas, do que a racionalidade técnica. Por exemplo, o MMS havia isentado de fiscalização a plataforma acidentada e, até antes do acidente, a BP estava se empenhando em estender o privilégio às suas demais plataformas em operação no Golfo do México (The Herald, 9/05/2010).

Além dessa “autorregulamentação” de certas atividades privadas, o acidente proporciona uma didática demonstração do potencial de causar catástrofes embutido na combinação com outro dos cânones da “globalização” financeira (esta, vertente final do modelo colonialista) – a mentalidade de enxugamento de custos ao extremo. E para que ninguém pense que tal conclusão é gratuita, as evidências foram proporcionadas pelo porta-voz por excelência da “globalização”, o Wall Street Journal.


Economia porca

Na edição de 28 de abril, o Journal destaca que a Deepwater Horizon não tinha um dispositivo de segurança adicional que, possivelmente, poderia ter impedido o desastre. Segundo a reportagem, na plataforma, a válvula de segurança (blowout preventer) responsável pela vedação da passagem do óleo, ou gás, em casos de emergência, tinha apenas dois sistemas de acionamento, um manual e outro automático, mas ambos falharam por motivos ainda desconhecidos. Entretanto, a plataforma não dispunha de um sistema acústico que fecha a válvula por meio de sinais sonoros, cujo uso não é exigido pelo MMS, que, em 2003, decidiu que o uso de tais dispositivos necessitava de mais estudos. «Os sistemas acústicos não são recomendados porque tendem a ser bastante custosos», afirma um relatório do órgão.

Porém, segundo o Journal, um dispositivo acústico do gênero custa cerca de 500 mil dólares, valor irrisório se comparado aos enormes custos operacionais envolvidos na exploração de petróleo em alto mar. A plataforma destruída, por exemplo, custava 560 milhões de dólares e o prejuízo da BP com o desastre e suas consequências já se encontra na casa das dezenas de bilhões de dólares, não se podendo descartar a possibilidade de que a empresa (que desde o acidente perdeu quase a metade do seu valor de mercado) não se recupere do impacto e suas operações estadunidenses acabem sendo “nacionalizadas” – o que aumentaria ainda mais a carga de ironia histórica envolvida.


Perigo para o nosso pré-sal

Diga-se de passagem que o arauto de Wall Street também observou que tal redundância de equipamentos de segurança é exigida pelas autoridades reguladoras da Noruega e do Brasil – onde já se ouvem vozes ressaltando os desdobramentos do acidente para a exploração da camada pré-sal.


Cadê o Greenpeace?

Para completar o simbolismo do acidente, a destruição da Deepwater Horizon ajudou a elucidar uma dúvida que se espalhou rapidamente por todo o mundo, referente ao ensurdecedor silêncio das grandes ONGs ambientalistas sobre o mesmo (em contraste com as ruidosas manifestações do Greenpeace contra a Petrobras por vazamentos muitíssimo menores, como o ocorrido na refinaria Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, em 2000).


A BP financia as ONGs…

Uma reportagem do Washington Post de 24 de maio ajudou a colocar os fatos em perspectiva, demonstrando que as maiores ONGs dos EUA – The Nature Conservancy, Conservation International, Environmental Defense Fund, Sierra Club e National Audubon Society – foram agraciadas nos últimos anos com doações da BP na casa das dezenas de milhões de dólares. Em alguns casos, como os da Nature Conservancy e da Conservation International, executivos da empresa integraram ou integram as diretorias das ONGs.

Como o Movimento de Solidariedade Ibero-americana (MSIa) e um número crescente de investigadores têm demonstrado, o movimento ambientalista internacional foi criado e tem sido instrumentalizado pela cúpula do establishment anglo-americano, como uma eficiente forma de atualização das velhas práticas colonialistas. Por isso, é ainda mais irônico que, como assinala oWashington Post, a credibilidade dessas organizações junto à mídia e à opinião pública estadunidenses estão afundando junto com a BP nas águas profundas do Golfo do México.

Movimento de Solidariedade Íbero-americana


Créditos:Este post é matéria apresentada no Boletim Eletrônico,Volume II, n° 13, de 19/07/2010, do MSIa – Movimento de Solidariedade Íbero-americana. Introduzi subtítulos no texto para facilitar e incentivar a leitura.

Para outras informações sobre o mesmo tema, visitar o site do MSIa no seguinte endereço: http://www.msia.org.br

Imagem: blogs.estadao.com.br

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Comentários

2 Comentários em “O duplo naufrágio da BP no Golfo do México”
  1. Willian Nunes disse:

    Bom dia…

    Gostei muito do seu blog, principalmente referente as ONGS e aos AMBIENTALISTAS…gostaria de saber qual seu e-mail para discutir sobre um assunto polêmico, “CAÇA REGULAMENTADA”… Eu sou favorável a caça regulamentada e fiscalizada, baseada em estudos cinegéticos e etc…acredito que você deve ser CONTRA…mas enfim, queria propor uma troca de opiniões educada e coerente…aguardo sua resposta no email que preenchi…um forte abraço e parabéns pelo blog…
    Willian Nunes

    • husc disse:

      Sr. Willian:
      O Sr. está errado quanto a eu ser contra a caça regulamentada. Sou completamente a favor. Acompanho, relativamente, este assunto, através da Revista Magnum. Possuo quase todos os seus exemplares e tenho nas armas de fogo uma das minhas paixões. Apesar de não possuir armas atualmente, para não ser tido como um criminoso, já tive, nos bons tempos até uma pequena coleção.
      A caça institucionalizada e regulamentada, ao invés do que a maioria das pessoas acredita, é uma das melhores formas de se preservar certas espécies de animais, bem como seus habitats. Só que isso não é devidamente explicado à população, de modo que, juntamente com essa viadagem da restrição quase que completa de aquisição de armas pelo cidadão comum, a caça fica como coisa ruim e apenas predatória. Nos países onde ela é permitida e regulamentada, é responsável por grandes áreas preservadas para esse fim, o que não aconteceria se tais áreas fossem ocupadas por fazendas industriais. A caça regulamentada não é contra o meio ambiente, mas a favor.
      E há outros motivos para se permitir alguns tipos específicos de caça. NO sul do Brasil, assim como na Argentina e no Uruguai, é permitida a caça ao javali, que é uma espécie alienígena para a região, e, sem predadores naturais, praticamente, vem se alastrando por lá de maniera avassaladora. É uma boa caça, e neste caso, útil, pois tais javalis arrasam plantações e são muito perigosos, pois são grandes e ferozes. Jacarés também. Muito protegidos, tornaram-se pragas em muitas regiões do Brasil, e a caça a esses animais também deveria ser permitida, dentro dos limites adequados. E assim por diante.
      Assim o Sr. me deu a idéia de colocar um post no meu blog sobre este assunto. E já há um post sobre o desarmamento da população, dê uma olhada.
      Obrigado pelo contato.
      Saqúde, vida longa e sabedoria.
      Husc

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