Os critérios do IPCC são confiáveis?
Em pleno desenvolvimento das discussões sobre o clima em Copenhague, em que o IPCC (sigla em inglês) do Painel Intergovernamental de Mudança Climática, organismo da ONU, continua ditando as regras do que acontecerá no mundo caso o homem venha a continuar usando os combustíveis fósseis, primordialmente, como fonte de energia, é tempo de perguntarmos se, realmente, os critérios do IPCC são válidos.
Existem outros centros de pesquisas, isentos das premissas geopolíticas que caracterizam a ONU, que dizem que o problema não é tão grande quanto o IPCC apregoa. Sabendo-se que as conclusões do IPCC baseiam-se em simulações por computador daquilo que vai acontecer com o clima da Terra no futuro (até, pelo menos o ano 2100) – através dos seus famosos “modelos” e “cenários” – é bom saber como eles funcionam, isto é, como são feitos. Quais são os critérios que norteiam os cientistas, que naqueles modelos e cenários introduzem dados (baseados em quê?), suas suposições e desejos, sobre o que vai acontecer com o mundo daqui para a frente?
Isso é necessário conhecer para podermos encarar o IPCC de uma forma, de fato, respeitosa como entidade que se baseia, realmente, em afirmações científicas cristalizadas, ou não. Neste artigo apresento parte do texto de Bjørn Lomborg, contido em seu livro «O Ambientalista Cético» no capítulo sobre o aquecimento global, que mostra, diligentemente, como são feitos os cenários do IPCC – e o que se depreende não é boa coisa. Aqui apresento apenas um resumo do texto do livro, pelo que recomendo, mais uma vez, que o prezado Visitante Desconhecido compre o livro e o leia integralmente.
Devo lembrar que este livro talvez seja o mais completo compêndio sobre o verdadeiro estado do mundo jamais escrito (embora de 2002, ainda é válido), sob todos os aspectos, desde a sua realidade como planeta, supostamente, poluído e/ou em destruição, quanto à evolução do nível de vida do ser humando e também quanto à disponibilidade, ou não, dos recursos naturais para a sua utilização pela humanidade, e por quanto tempo. Devo lembrar também que, recentemente, Bjørn Lomborg lançou um segundo livro, especificamente dedicado ao aquecimento global, intitulado: «Cool it – Muita Calma Nessa Hora!» que é, simplesmente (como o subtítulo do próprio livro diz), um «manual do ambientalista cético para o aquecimento global» – igualmente fundamental. Os sub-títulos foram acrescentados por mim. Vamos então ao texto.
Os subtítulos foram acrescentados por mim para facilitar a leitura.
Os modelos e cenários do IPCC são dignos de crédito?
Se quisermos agir com sensatez ao desafio do aquecimento global, precisamos responder a pelo menos seis importantes – e controvertidas – perguntas:
→ «Em que grau o CO2 afeta a temperatura?» — A pergunta importante não é se o clima é afetado pelo CO2 humano, mas em que grau. Se o efeito sobre o clima de uma maior quantidade de CO2 na atmosfera é pequeno, o aquecimento global pode não ser, particularmente, importante.
→ «Outras causas poderiam estar por trás do aumento de temperatura?» — Se o aumento de temperatura até agora observado não se deve apenas ao aquecimento global (tomando-o como diretamente decorrente dos gases de efeito-estufa), isso também significa que o aquecimento global é menos importante.
→ «Os cenários de efeito-estufa são razoáveis?» — Quando somos informados do que acontecerá, devemos perguntar se essas previsões se baseiam em pressupostos razoáveis.
→ «Quais as conseqüências de um possível aumento da temperatura?» — Se um aumento da temperatura não implica em conseqüências catastróficas, como as divulgadas, o problema – CO2, ou não – talvez não seja tão grave como nos informaram.
→ «Quais os custos do controle das emissões de CO2 e da falta de controle?» — Para tomarmos uma decisão informada sobre o aquecimento global, precisamos conhecer os custos da inação, mas também, os custos da ação.
→ «Como devemos fazer a nossa escolha?» — O que deve ser levado em conta para decidirmos entre os custos da ação e da inação?
Trataremos neste artigo da terceira pergunta. Em outros posts falaremos das outras.
O que são os “cenários” do IPCC
Fundamentalmente, os cenários se distinguem em duas dimensões. Uma dimensão básica é se o futuro estará mais centrado no desenvolvimento econômico ou ambiental.
Os quatro cenários centrados no desenvolvimento econômico são indicados por “A”, enquanto os outros dois cenários voltados para a sustentabilidade ambiental são indicados por “B”. A outra dimensão básica descreve o grau de orientação global ou regional.
Os quatro cenários globais recebem o número “1”,enquanto os dois cenários mais regionalmente motivados recebem o número “2”. Com estas duas dimensões, deveríamos ter apenas quatro cenários, mas o cenário econômico/global (“A1”) é subdividido em três cenários distintos. Um é intensivo em combustíveis fósseis (“A1F1”), outro equilibra os combustíveis fósseis e não-fósseis (“A1E”), e o terceiro acabará fazendo a transição para combustíveis não-fósseis (“A1T”) – embora nunca afirmado explicitamente, esse tratamento especial de um dos cenários parece indicar que “A1” é, de fato, o cenário mais conservador, embora essa vantagem se perca rapidamente devido à subdivisão adicional do cenário “A1”.
Como uma peculiaridade final, o IPCC proibiu que os cenários imaginem, explicitamente, reduções das emissões dos gases-estufa decorrentes de preocupações com o aquecimento global ou mesmo reduções que resultassem de tratados já assinados. Isso torna os cenários um tanto artificiais, refletindo o pior dos casos. As próprias equipes de modelagem alegaram, com certa razão, ser difícil imaginar uma sociedade centrada empolíticas ambientais rigorosas, mas sem quaisquer políticas climáticas.
Os cenários de efeito-estufa são razoáveis?
Prever 100 anos à frente é uma atividade cheia de armadilhas, como mostram as previsões do passado. Willian A. Peffer viu, corretamente, (em 1893) que «os homens navegarão pelo ar, e o fumo será suprimido», enquanto que Erastus Wiman preocupou-se muito com a produção de alimentos e a erosão do solo, e achou provável que no futuro «os impostos seriam reduzidos, sem a necessidade de um exército permanente».
Modeladores de cenários do IPCC realçam como algumas evoluções foram incorretamente vistas como prováveis (como a energia nuclear, que seria «barata demais para ser medida»), e como algumas evoluções que mal foram consideradas revelaram conseqüências gigantescas (como a perspectiva pessimista do mercado em relação aos carros à gasolina no final do século 19).
O maior perigo dos prognósticos é que tendemos a subestimar o poder das inovações técnicas de atenuar a preocupação original. Se quisermos que boas previsões resultem dos modelos de clima, é importante alimentá-los com informações corretas. Senão, teremos apenas “lixo entrando, lixo saindo”. De longe, a mais importante variável a esse respeito são as nossas emissões a longo prazo de CO2 dos combustíveis fósseis. Quanto CO2 realmente emitiremos?
Previsões conservadoras
A maioria das previsões até agora baseou-se num cenário conservador: o que acontecerá se não modificarmos nosso comportamento em relação às reduções das emissões de gases-estufa. As emissões de CO2 serão quase com certeza a influência dominante dobre as tendências de sua concentração na atmosfera durante o século 21.
O modelo IS92a do IPCC (de 1992), considerado semelhante ao cenário de 1990 (o primeiro relatório do IPCC), descreve um futuro onde «…o suprimento de energia será intensivo em carvão, e no lado da demanda apenas aumentos modestos de eficiência serão obtidos; os controles de monóxido de carbono serão modestos, o desmatamento prosseguirá até que as florestas tropicais sejam destruídas, e as emissões agrícolas de metano e óxido nitroso não serão controladas».
No entanto, alguns dos fatores importantes do prognóstico erraram completamente o alvo. Além de um crescimento demográfico excessivo, o modelo esperava, surpreendentemente, que mais de 82% de todas as florestas tropicais seriam derrubadas até 2100. O IPCC registrava 1.447 milhões de ha de florestas tropicais derrubadas de 1990 a 2100, comparados com uma área total existente em 1990 de ± 1.756 milhões de ha (dado da FAO de 1997) – e isso são 73% e não 82%…
Quanto ao metano…
O IPCC também esperava que o gás-estufa metano (CH4) continuasse aumentando – e os novos cenários pressupõem o mesmo. No entanto, a taxa de aumento de metano vem caindo, e parece estacionar-se. A queda da taxa de crescimento do metano atmosférico reflete a aproximação de um estado estacionário, em uma escala de tempo comparável à da duração atmosférica do próprio metano.
O metano vem de uma ampla variedade de fontes, basicamente de brejos, mineração e uso de carvão, vazamentos de gás, produção de arroz, com cerca de 1/5 proveniente de “fermentação entérica” – essencialmente, arroto de vacas. O CH4 constitui cerca de 20% do aquecimento de estufa, tendo mais do que dobrado na atmosfera desde 1850 a 2000. O cenário IS92a do IPCC esperava que a concentração de CH4 em 2100 teria mais do que dobrado de novo, e igualmente, dobrando o potencial de aquecimento do metano. Isso tudo levaria a um exagero na estimativa do aquecimento em 2100 de pelo menos 5%.
Quanto ao CO2…
O IPCC pressupôs (no relatório IS92a) que a concentração de CO2 aumentasse 0,64% ao ano, de 1990 a 2100 – e esta é a taxa de crescimento sustentada, e cumulativa. No entanto, isso é muito mais do que a taxa observada. Na década de 1980, foi de 0,47% e na de 1990, de 0,43%. Nos últimos 38 anos, a taxa de crescimento anual escedeu os 0,64% em apenas três anos: 1973, 1988 e 1998. Como as taxas são cumulativas, a estimativa do IPCC implica que a concentração de CO2 dobraria em 109 anos – enquanto que à taxa observada, isso se daria em 154 anos. O IPCC ainda informa, laconicamente, que «…deve-se observar que as recentes emissões são baixas, comparadas com as projetadas pelo IS92a, mas essa diminuição pode ser temporária».
E os outros gases-estufa?
Focalizar apenas o CO2 não é particularmente sensato, já que todos os gases-estufa contribuem para o aquecimento global. O impacto de outros gases costuma ser traduzido em termos de CO2, de forma a que precisemos pensar em um só gás-estufa. No entanto, computando o CH4, o N2O e os gazes CFC, o IPCC assume que a taxa de crescimento equivalente do CO2 sozinho seria de 0,85%, o que também está bem acima da atual taxa medida. Gráficos mostram o crescimento dos gases-estufa desde 1851, expressos em uma taxa equivalente ao CO2. Na década de 1980, a taxa decrescimento atingiu um pico de 0,76%, mas desde 1990 ela tem sido de 0,58%. Um aumento de 0,85% dobra o CO2 em apenas 82 anos, ao passo com que, à taxa real medida, isso se daria em 120 anos!
Exageros no CO2
Como se isso não bastasse, a maioria das simulações computadorizadas típicas usa um valor ainda maior para o aumento do CO2, a saber: 1%. Esse porcentual visa a «simplicidade e conveniência», embora o próprio IPCC admita que é «arbitrário e elevado». Isso faz com que o CO2 dobre em menos de 70 anos, comparados com a estimativa empírica de 120 anos. Assim, os cenários de forçamento usados pelos modelos computadorizados não se originaram, diretamente, de nenhuma visão futura coerente do mundo. Eles são uma imposição arbitrária de um crescimento anual de 1% sobre as concentrações futuras de gases-estufa. É difícil entender por que os modeladores optaram por modelar o ponto central em questão (a acumulação dos mais importantes gases-estufa) com uma cifra arbitrária, redonda, de 1%, em vez de uma bem menor de, no máximo, 0,6%.
A atitude relaxada em relação ao realismo dos cenários remonta ao próprio IPCC, que se perguntou se os diferentes cenários de aumento de CO2 realmente importavam. A sua conclusão, um tanto branda, foi a de que «a diferença nas respostas dos modelos em relação ao IS92a e os experimentos usando um aumento de CO2 de 1% ao ano tenderão a ser pequenos na época da duplicação». Mas a questão importante é, sem dúvida: qual a diferença em face do aumento real?
Consequência: aquecimento mais rápido
A conseqüência é que os modelos acabam prevendo um aquecimento quase com o dobro da rapidez real. Como o aquecimento ao longo do tempo também alcança um equilíbrio, um aumento de 0,5% está mais próximo desse equilíbrio do que um aumento de 1% – experimentando-se, deste modo, em qualquer momento dado, mais de 50% de calor extra.
Tipicamente – e infelizmente – os modelos que nos são apresentados pela imprensa são, exatamente, aqueles tipos de modelos mais rápidos do que os próprios cenários do IPCC (estes também bem mais rápidos do que as observações). Desse modo, a Scientific American mostra o aumento do CO2 de 1% e informa que devemos esperar ver um aumento da temperatura de cerca de 3°C em 2100, sem mencionar a premissa irreal do próprio aumento de 1%.
São 40 “cenários” diferentes e… “ajustados”!
Quanto aos 40 novos cenários do IPCC, os modeladores abandonaram, explicitamente, a idéia de prever o futuro e, em vez disso, falam em “projeções” e em “futuros possíveis”. Os cenários do IPCC são «uma tentativa de histórias auxiliadas por computadores» (segundo o grupo Image – responsável por um dos cenários).
Todos os cenários do IPCC foram definidos, desde o início, para se “ajustar” a duas metas quantitativas: população e riqueza – que são escolhas iniciais, e não o resultado de um modelo. A maior dificuldade foi a falta objetiva de dados sobre as relações funcionais numéricas entre os grandes propulsores das emissões e os parâmetros subjacentes – a cada etapa de tempo. Tais parâmetros básicos foram “determinados” por consenso, ou deixados a critério das equipes individuais de modelagem.
Quanto à população, embora sua evolução seja uma decisão crucial do pré-modelo, o raciocínio por detrás dela, infelizmente, nunca é, adequadamente, explicado.
Reduzindo se o dióxido de enxofre, mais calor
Todos os cenários esperam que as emissões de SO2 (dióxido de enxofre) sejam bem inferiores às originalmente supostas no relatório IS92a. Em grande parte as futuras reduções do SO2 devem-se a restrições nos países em desenvolvimento. Não surpreende que venham sendo implementadas políticas para reduzir o SO2. As emissões de SO2 são importantes porque os aerossóis de enxofre esfriam o clima. Assim, se as emissões de enxofre forem reduzidas mais cedo, o aquecimento também chegará mais cedo. Esses novos cenários, com menos emissões de SO2 são mais uma razão para o aumento da temperatura prevista pelo IPCC em 2001, para 2100. Mas também não podemos esquecer de que a drástica redução das emissões de SO2 é uma grande vantagem à saúde humana, além de favorecer ecossistemas vulneráveis.
O desenvolvimento econômico
Quanto à renda, em termos gerais, todos os cenários descrevem futuros melhores do que o presente, tanto no mundo desenvolvido quanto nos países em desenvolvimento. Espera-se, no final do século, que a pessoa típica do Terceiro Mundo de hoje estará tão bem de vida quanto uma pessoa típica do mundo industrializado está atualmente – em todos os cenários, estará muito mais rica. Isso dá um respaldo à citação tranqüilizadora de Julian Simon: «Dentro de um ou dois séculos, todas as nações e a maior parte da Humanidade estarão dentro ou acima dos atuais padrões de vida ocidentais». E: «A condição material de vida continuará melhorando para a maioria das pessoas, na maioria dos países, na maioria do tempo, indefinidamente».
Observe-se porém, que Simon fala sobre todas as nações e a maioria da Humanidade, enquanto os dados são apenas uma média de todos os países em desenvolvimento; deste modo, é provável que a renda média precise estar bem acima do nível industrializado de 2000, para que a citação de Simon seja verdadeira.
Vale o sacrifício hoje?
Não podemos deixar de perguntar – comparando-se os cenários “A” (com desenvolvimento econômico), e “B” (priorizando o meio ambiente) – se a melhoria do meio ambiente vale o sacrifício, pelas gerações futuras, de 50% a mais de renda no mundo desenvolvido, e para os futuros habitantes do ora mundo em desenvolvimento, sacrificar cerca de 75% a mais de renda para viver num mundo ambientalmente melhor. Para fazermos um julgamento prudente dos cenários, temos que considerar as vantagens e também as desvantagens da escolha entre “A” e “B”, examinando o meio ambiente e a economia. Essa questão é central em relação a como lidar com o aquecimento global.
Florestas, áreas de cultivo etc
Os cenários também incorporam estimativas de áreas de florestas – causando emissão de CO2 quando derrubadas, ou a sua redução quando estendida. Para quase todos os cenários, a área de florestas em 2100 é maior do que em 2000. Um dos cenários (“A2”) mostra um mundo relativamente pobre e populoso, com uma redução de florestas de cerca de 17%.
As evoluções podem não ser tão realistas. Os modelos presumem que, apesar de uma população bem maior, haverá menos necessidade de terra cultivada, devido à expectativa de um aumento de mais de quatro vezes no rendimento (da agricultura/pecuária) nos países em desenvolvimento, e também por se acreditar em uma redução maciça do consumo de carne ao estilo ocidental, devido a preocupações ambientais e com a saúde. Estima-se que, de 2050 a 2100, a terra cultivada possa reduzir-se em 27% (com a terra cultivada permanecendo essencialmente constante de 1990 a 2050), e as pastagens devendo reduzir-se em 32%.
Quanto à energia,… o “x” da questão
É o que realmente importa para as emissões de CO2, sendo, portanto, o impulsionador central das previsões de aquecimento. Espera-se um consumo de energia bem maior. Com desenvolvimento econômico (“A1”), a energia primária deverá mais que quintuplicar no decorrer do século. No modelo ambiental (“B1”), espera-se uma redução da necessidade de energia a partir de meados do século, trazendo o consumo total no final do século de volta ao nível atual!
Assim, os dois fatores centrais que determinam as emissões de CO2 são o consumo total de energia, e a parcela que cabe aos combustíveis fósseis. Todos os cenários pressupõem que a eficiência da energia continuará aumentando, mas à taxas bem diferentes. Todos os indicadores parecem mostrar que alguma melhoria de energia acontecerá de qualquer maneira, basicamente, devido à desmaterialização e à melhoria da eficiência, mesmo a custos de energia constantes, de modo que a questão é o nível do aumento da eficiência.
A magnitude correta da melhoria depende, em grande parte, do custo da energia: com energia barata, haverá pouco incentivo para aumentar a eficiência, enquanto que uma energia cara acelerará as melhorias da eficiência. Alguns autores alegam que isso também é um problema, e que esse aumento de eficiência é improvável, ao comparar a eficiência da energia mundial de 1980 a 1996, quando os preços de energia caíram de, aproximadamente, o máximo, para o mínimo.
Entretanto, para o carvão, petróleo e gás natural, os preços deverão ser menores – numa situação “B”, do que em “A”, basicamente porque o maior consumo de energia, num cenário que prioriza o crescimento econômico e a industrialização, fará subir os preços. Mesmo assim, tudo indicaria que, se todos os outros fatores permanecerem inalterados, a melhoria da eficiência da energia deveria ser maior, e não menor, mesmo num cenário tipo “A”.
Comparação com a energia renovável
O outro impulsionador das emissões de CO2 é o uso dos combustíveis fósseis em comparação com a energia renovável. Em nenhum cenário, o IPCC considerou a energia nuclear constituindo mais do que de 0 a 15%, e como ela não muda a mensagem qualitativa dos gráficos, falaremos aqui apenas dos combustíveis fósseis comparados com as fontes renováveis.
Todos os cenários prevêem um aumento da porcentagem do uso de energia renovável. Assim, mesmo nos cenários tipo “A”, apesar do uso maior (bem maior) de energia, a redução das emissões totais de CO2 acompanharão, mais ou menos, os cenários tipo “B”, a partir de meados do século.
De novo a pergunta é: por que ocorre a substituição? De novo, é o preço relativo das diferentes fontes de energia que parece ser o fator decisivo. Todos os cenários presumem que os preços do petróleo, carvão e gás subirão, nitidamente, alguns triplicando até o final do século e, de forma semelhante, os preços da energia de fontes renováveis cairá.
Energias solar e eólica
O custo das energias solar e eólica deverá cair para 2-5¢/kWh, tornando-se cada vez mais competitivas, à medida em que os preços do carvão, petróleo e gás continuarem a subir. Mas também podem cair (e deverão cair) à medida em que os preços da energia renovável se tornarem competitivos. Assim, na decisão das futuras emissões de CO2, os dois fatores mais importantes parecem ser a rapidez com que a eficiência de energia aumentará, e o grau em que a energia renovável ficará mais barata do que os combustíceis fósseis.
Para o IPCC não haverá progresso tecnológico!
Entretanto, essa não foi a abordagem básica dos modeladores de cenários do IPCC, especialmente para os cenários “B”. Neles, não é o progresso técnico e razões econômicas que limitaram o uso de combustíveis fósseis, mas sim “preocupações ambientais”. Kram, 2000: «Quando o uso de combustíveis fósseis cai em “A1”, isto se deve, basicamente, ao progresso tecnológico, enquanto que nos cenários “B” isto se deve a um sentimento político contra os combustíveis fósseis». Simplesmente se decide, nos cenários “B”, que a energia renovável vence – mesmo sem considerar, p.ex., progressos técnicos, como os processos de desenvolvimento de carvão limpo, tais como a dessulfurização e liquefação/gaseificação do carvão, embora isso aumente o seu preço como combustível limpo. Tais processos não são, explicitamente, considerados nos cenários “B”.
Um «mundo próspero, justo e verde»!
Essa abordagem é repetida na maioria das decisões nos cenários, baseados, sobretudo, em um número surpreendente de afirmações ingênuas e em clichês. O cenário “B” é sintetizado como sendo um «mundo próspero, justo e verde».
Uma mudança persistente na economia resulta de «…um número crescente de pessoas começarem a organizar o seu próprio emprego e renda. Em relação às tendências de globalização e os efeitos colaterais de aumento do desemprego, desigualdade e super-exploração do meio ambiente, haverá um apoio crescente à renda dos cidadãos e “sistemas de trocas locais”».
Isso só pode ser gozação
Isso levará à paz e à reconciliação: «As regiões afluentes desenvolvem formas consistentes e eficazes de apoiar o desenvolvimento sustentável nas regiões pobres, acordos de transferência de tecnologia sendo um dos instrumentos. Na espiral subseqüente de confiança mútua, as regiões menos desenvolvidas conseguem controlar as tensões sociais e econômicas; a corrupção gradualmente desaparece e os conflitos locais são resolvidos pela negociação. Nessa atmosfera de sinceridade de ambos os lados, as organizações internacionais ganham parte da autoridade e a eficácia que seus fundadores almejaram. Para a economia, o “enverdecimento” dos negócios adquire um ímpeto inesperado».
Nos transportes, «para solucionar os problemas ambientais e de congestionamento, há uma política ativa de investimentos em infra-estrutura: metrôs nas grandes cidades, pistas separadas para ciclistas e ônibus elétricos etc».
E nada de churrasco!
E para a agricultura, há um afastamento da carne, como já mencionado. De forma semelhante, «o uso de fertilizantes e outros insumos agrícolas começa a declinar, porque os agricultores aprendem a usar mais seletivamente os insumos, ou a mudar totalmente para práticas de agricultura sustentável… As virtudes de culturas locais e práticas agrícolas tradicionais são redescobertas».
O uso de menos recursos é resolvido assim:
«…mudando atividades, valores e estilos de vida, a transição para uma economia de serviços e informações, e a inclusão da economia informal contribuem para um declínio da demanda de energia e materiais por unidade de produção econômica (desmaterialização, reestruturação ecológica, “fator dez” [projetos que utilizam 1/10 de recursos naturais] etc)».
Será que eles, realmente, esperam isso tudo?
Sintetizando, os modeladores informam que os cenários “B” «retratam situações e condições como se esperaria que emergissem» (citações de Vries et al, 2000). A decisão básica do nível de aumento da eficiência da energia foi, meramente, tomada para se ajustar à trama básica: fez-se um «ajuste de parâmetros para satisfazer as forças propulsoras-chave das tramas». Seria mais útil analisar até que ponto é, realmente, provável que a energia renovável superará em desempenho os combustíveis fósseis.
Como se presume que os combustíveis fósseis mantêem a dianteira, como em cenários “A”, o mundo será rico, mas continuará emitindo grandes quantidades de CO2. Caso se presuma um rápido desenvolvimento tecnológico, onde o custo da energia solar poderia cair para menos do que 0,8¢/kWh, obteríamos um mundo igualmente rico, mas que emitirá pouco CO2.
Qual mundo é mais provável (ou viável)?
Portanto, precisamos saber qual mundo é o mais provável, e o que devemos fazer se quisermos nos aproximar mais de cenários menos poluentes, perguntando, é claro, quais seriam os benefícios extras e os custos extras de tal mudança de curso. Embora este seja o problema mais importante na discussão dos cenários, essa questão nunca é abordada quanto ao aquecimento global, devido à intenção original dos modeladores de considerar todos os cenários como prováveis.
Mas é claramente implausível que a maioria dos cenários seja provável. As reservas de combustíveis fósseis, sobretudo o carvão, são suficientes para cobrir vários séculos. Mas sabemos também que os preços das fontes renováveis (como as energia eólica e solar) vêm caindo rapidamente, a eólica sendo quase competitiva com a solar daqui a duas ou três décadas.
O combustíveis renováveis vão aguentar o tranco?
Essa tendência para combustíveis renováveis cada vez mais baratos e combustíveis fósseis mais caros, foi também o que tornou o IS92a problemático, o qual previu uma quadruplicação da produção e do consumo de energia de 1990 a 2100. Os combustíveis fósseis constituem cerca de 85% da produção de energia em 2025 (que, surpreendentemente, são mais do que os 80% atuais) e ainda uns 57% em 2100. Como a produção total de energia é vista como quadruplicando, isso significa que a parcela correspondente aos combustíveis fósseis triplicaria no decorrer do século. Ao mesmo tempo, o IPCC esperava que esse consumo de combustíveis fósseis saísse caro. Um barril de petróleo aumentará dos atuais [o livro «O Ambientalista Cético» foi escrito em 2002] US$10-30 para US$55 em 2025 e US$70 em 2100. Finalmente, o IPCC afirma que…
«…os custos dos suprimentos de energia não-fóssil deverão cair, significativamente, nos próximos 100 anos (…) No todo, embora os combustíveis renováveis não sejam muito competitivos em relação à energia fóssil em 1990, a sua penetração no mercado se acelera à medida em que os custos unitários caem, e os preços dos combustíveis fósseis disparem, em torno de 2025».
De fato, o preço que a energia solar alcançará no fim do século está algumas décadas longe demais. Todavia, parece plausível que a energia renovável será, por si mesma, ou com um pequeno “empurrão”, competitiva antes de meados do século.
Outras opções energéticas para o futuro
Modelos investigam as conseqüências de combustíveis fósseis mais caros e combustíveis renováveis cada vez mais baratos. Qualquer outra fonte (além da solar considerada) de energia atualmente cara, mas potencialmente ilimitada com que possamos sonhar para o futuro – exemplo óbvio seria a fusão do hidrogênio, que por sinal o IPCC também deixa de considerar – tornaria o modelo ainda mais atraente.
Num quadro superior, o mundo levaria 370 anos para mudar completamente para a energia solar, somente porque os combustíveis fósseis se tornarão caros demais. Porém, de forma mais realista, se a atual queda do preço da energia solar de 50% por década continuar, ela se tornará competitiva em 2030-2040. Na verdade, 98,5% de todas as reservas de carvão jamais serão usadas, porque a energia solar se tornará mais barata. A energia solar começará mesmo a ser usada na década de 2040, e dominando todos os setores em 2105.
Com os investimentos na tecnologia da energia fóssil, a transição torna-se difícil num prazo de 20 a 30 anos. Mesmo assim, os modelos tipo “A” parecem implausíveis, e as emissões de carbono sigam uma trajetória bem menor.
Sem nenhuma queda do preço da energia solar, o mundo continuaria usando combustíveis fósseis por longo tempo, fazendo a temperatura aumentar mais de 2°C em 2100, chegando a mais de 5°C em 2275, antes de cair. Essas estimativas são bem inferiores às do IPCC. Porém, com uma evolução mais realista da energia solar, a temperatura aumentará apenas 0,7°C nos próximos 50 anos, e depois cairá. Mesmo no cenário mais pessimista da energia solar, o aumento da temperatura será de apenas 1,5°C nos próximos 100 anos, e ela cairá a partir dali, voltando à temperatura de 1995 em 2195.
Estamos com a ótica certa?
Este modelo mais realista mostra que o aquecimento global não é um problema cada vez mais grave. As temperaturas aumentarão muito menos do que as estimativas do IPCC, provavelmente com um aumento de menos de 2°C em 2100.
Tudo indica que estamos olhando na direção errada ao tentar enfrentar o aquecimento global. A maioria das discussões políticas – e certamente o acordo internacional de Kyoto – enfoca a limitação das emissões de carbono mediante imposições, quotas ou proibições que, embora venham a reduzir as atuais emissões, custam o alto preço de uma redução do crescimento econômico.
O ponto realmente importante é assegurar que as fontes de energias renováveis rapidamente diminuam de preço, o que requer um aumento substancial dos financiamentos para que haja bem mais pesquisa. Além disso, o custo dessas pesquisas de energia seria imensamente menor do que o custo da limitação das emissões de carbono.
Resumindo: as estimativas do IPCC são muito pouco prováveis
o anterior cenário conservador do IPCC leva a estimativas exageradas da velocidade do aquecimento global. Além disso, a decisão do IPCC de tratar todos os cenários como prováveis, faz com que cenários do tipo “A” sejam plausíveis. Nesses cenários, embora os preços dos combustíveis fósseis disparem, e o preço da energia solar despenque, continuaremos usando, predominantemente, combustíveis fósseis até o final deste século. Acontece que esse tipo de cenário é improvável – sob pressupostos tecnológicos razoáveis. Pelo contrário, pressupostos mais plausíveis apontam para uma substituição quase total dos combustíveis fósseis no decorrer do século 21, limitando drasticamente as emissões globais de carbono e restringindo os aumentos de temperatura a níveis de cenários “B” ou menos.
Essa compreensão mais realista faz com que perguntemos o que precisa ser feito para direcionar o futuro em um caminho mais razoável. Resposta: tornar a energia renovável mais competitiva pela intensificação da pesquisa.
Para enfrentar o aquecimento global não precisamos eliminar rapidamente os combustíveis fósseis. Precisamos assegurar que, através de financiamentos para pesquisas, o Sol, o vento e a fusão se tornem fontes de energia competitivos até meados do século. Isso custará muito menos, e a temperatura aumentará só um pouco mais. Mas se nada de bom acontecer, temos também que discutir as conseqüências do aquecimento global, adotando as premissas conservadoras do IPCC como certas.![]()
Bjørn Lomborg
Os livros a ler são: «O Ambientalista Cético», e «Cool it – Muita Calma Nessa Hora», ambos de Bjørn Lomborg (Editora Campus/Elsevier, RJ).
Imagens: Husc, wto.org; sciencepolicy.colorado.edu

