Por que a ciência politizada é perigosa

«Estado de Medo» é um romance sobre ambientalismo, onde o autor, Michael Crichton (formado em Medicina em Harvard, e autor de vários livros, com mais de 150 milhões de exemplares vendidos em todo o mundo, dentre os quais «Mundo Perdido» – «Jurassic Park»), mostra como funcionam os bastidores do mundo do ambientalismo radical, com suas maquinações para amedrontar a população, a manipulação de informações, mentiras e, sobretudo, com a criação artificial de catástrofes, que são vistas como naturais, a fim de convencer o mundo de que coisas como o aquecimento global e as grandes catástrofes naturais serão inevitáveis e já estão acontecendo. O texto apresentado neste post é o «Apêndice I» do livro de Crichton, no qual ele faz uma severa advertência quanto à interferência da política na Ciência, através da utilização desta para fins escusos e que podem colocar a Humanidade em sérios riscos, como já aconteceu várias vezes na História – e ele dá exemplos disso. Hoje, é o movimento ambientalista internacional, que usa a Ciência de maneira quase que chantagiosa para respaldar idéias totalitárias sob um véu de salvação do planeta, o que, para os ingênuos e desinformados só pode ser algo provido de razão. Mas não é. Eis o texto de Michael Crichton.
Os subtítulos foram acrescentados por mim para facilitar a leitura.
Porque a ciência politizada é perigosa
A crise da superpopulação mundial
Imaginem uma nova teoria científica que alerte para uma crise eminente e apresente uma saída. Essa teoria consegue apoio imediato dos principais cientistas, políticos e celebridades do mundo todo. A pesquisa é financiada por importantes órgãos de filantropia e realizada em prestigiosas universidades. A crise é freqüentemente mencionada na imprensa. A ciência é ensinada nas universidades e nos colégios. Não estou falando em aquecimento global. Estou falando de outra teoria que foi proeminente há um século.
Seus defensores incluíam Theodore Roosevelt, Woodrow Wilson e Winston Churchill. Foi aprovada pelos juizes da Suprema Corte Oliver WendeIl Holmes e Louis Brandeis, que legislaram a favor. Os nomes famosos que a apoiaram foram A1exander Graham BeIl, inventor do telefone; a ativista Margaret Sanger; o botânico Luther Burbank; Leland Stanford, fundador da Universidade de Stanford: o escritor H. G. WeIls; o dramaturgo George Bernard Shaw; e centenas de outros. Ganhadores do prêmio Nobel a apoiaram. A pesquisa foi patrocinada pelas Fundações Carnegie e RockefeIler. O Cold Springs Harbor Institute foi construído para realizar essa pesquisa, mas importantes trabalhos também foram realizados em Harvard, Yale, Princeton, Stanford e na Johns Hopkins. Legislação referente à crise foi aprovada de Nova York à Califórnia.
Essas iniciativas tiveram o apoio da Academia Nacional de Ciências, da Associação Médica Americana e do Conselho Nacional de Pesquisa. Diziam que se Jesus estivesse vivo, ele apoiaria também.
De um modo geral, a pesquisa, a legislação e a formação da opinião pública em torno da teoria duraram quase meio século. Os que se opunham a ela eram silenciados e chamados de reacionários, cegos para a realidade ou simplesmente ignorantes. Mas, pensando bem, o que surpreende é que poucos foram os que puseram alguma objeção.
Hoje sabemos que essa famosa teoria que conseguiu tanto apoio era na verdade uma pseudociência. A crise que ela anunciava não existia. E as ações em nome dela eram moral e criminosamente erradas. E por fim, levaram à morte milhões de pessoas.
A teoria era sobre a eugenia e sua história é tão terrível – e tão constrangedora para os que foram apanhados por ela – que hoje é raramente citada. Mas é uma história que deve ser bem conhecida por todos os cidadãos para que seus horrores não se repitam.
A idéia era eliminar o “lixo humano”
A teoria da eugenia postulava uma crise do pool de genes que levaria à deterioração da raça humana. Os melhores seres humanos não estavam procriando com a mesma rapidez dos seres inferiores – os estrangeiros, imigrantes, judeus, degenerados, desajustados e os “débeis mentais”. Francis Galton, um respeitado cientista britânico, foi quem primeiro especulou sobre essa área, mas suas idéias foram levadas além do que ele pretendia. Foram adaptadas pelos americanos interessados em ciência, bem como por todos os que não se interessavam pela ciência, mas que se preocupavam com a imigração de raças inferiores no começo do século 20 – «perigosas pragas humanas» que representavam «a maré crescente de imbecis» e que poluíam o que havia de melhor na raça humana.
Os eugenistas e os imigracionistas uniram forças para acabar com aquilo. O plano era identificar indivíduos débeis mentais – a maioria dos judeus era considerada débil mental, bem como muitos estrangeiros e negros – e fazer com que cessassem de procriar, isolando-os em instituições ou os esterilizando.
Racismo e genocídio
Como disse Margaret Sanger: «Criar os que não servem para nada à custa dos bons é uma crueldade extrema… não há maior maldição para a posteridade do que permitir uma população crescente de imbecis». Ela mencionou o fardo que seria cuidar «deste peso morto de lixo humano».
Essas opiniões eram amplamente compartilhadas. H. G. Wells criticava os «enxames ignorantes de cidadãos inferiores». Theodore Roosevelt disse que «a sociedade não pode permitir que os degenerados se reproduzarn». Luther Burbank: «Parem de permitir que criminosos e deficientes se reproduzam». George Bernard Shaw disse que só a eugenia podia salvar a humanidade.
O movimento era declaradamente racista, exemplificado por textos como «A Maré Alta da Cor Contra a Supremacia do Mundo Branco», do escritor americano Lothrop Stoddard. Mas naquela época o racismo era considerado um aspecto sem importância do esforço para atingir um objetivo rnaravilhoso – a melhoria da humanidade no futuro. Foi essa idéia avant-garde que atraiu as mentes mais liberais e progressistas de uma geração. A Califórnia foi um dos 29 estados americanos a aprovar leis a favor da esterilização, provando ter maior visão do futuro e entusiasmo – mais esterilizações foram realizadas na Califórnia do que em qualquer outra parte da América.
Os patrocinadores, e o início da “solução final”
Pesquisas sobre eugenia foram patrocinadas pela Fundação Cambridgee mais tarde pela Fundação Rockefeller. Esta última foi tão entusiástica que mesmo depois que a iniciativa eugenista transferiu-se para a Alemanha, envolvendo a morte por gás de indivíduos das instituições para doentes mentais, continuou a financiar os pesquisadores alemães em alto nível. A Fundação Rockefeller silenciou sobre o assunto, mas estava ainda financiando a pesquisa em 1939, meses antes do começo da Segunda GuerraMundial.
Desde a década de 1920, os eugenistas americanos ficaram enciumados porque os alemães tiraram deles a liderança do movimento. Os alemães eram admiravelmente progressistas. Construíram casas de aspecto comum onde os “doentes mentais” eram entrevistados um de cada vez, antes de serem levados para um quarto dos fundos, que na realidade era uma câmara de gás. Lá eram mortos com monóxido de carbono, e seus corpos levados a um crematório localizado na mesma propriedade.
Finalmente o programa foi expandido em uma vasta rede de campos de concentração localizados perto das estradas de ferro, o que facilitou o transporte e a morte de dez milhões de indesejáveis.
A Segunda Guerra Mundial mostrou a sinistra faceta da eugenia
Após a Segunda Guerra Mundial, ninguém mais era geneticista ou sequer fôra a favor do programa. Biógrafos dos célebres e dos poderosos não falavam no envolvimento apaixonado dos seus biografados com essa filosofia e às vezes sequer o mencionavam. A eugenia deixou de ser tema nas salas de aula das universidades, embora alguns argumentem que a idéia continua a existir disfarçada.
Porém, em retrospecto, três pontos se destacam. O primeiro, a despeito da construção do laboratório Cold Springs Harbor, a despeito dos esforços das universidades e das petições dos advogados, não havia fundamentação científica para a eugenia. Na realidade ninguém na época sabia o que era um gene. O movimento conseguiu se desenvolver porque usava termos vagos nunca rigorosamente definidos. “Debilidade mental” podia significar qualquer coisa desde pobreza e analfabetismo até epilepsia. Também não havia uma definição clara de “degenerado” ou “desajustado”.
Um programa social travestido de ciência
Segundo, o movimento eugenista era na realidade um programa social mascarado de científico. O que o incentivou foi a preocupação com a imigração, o racismo e pessoas indesejáveis que se mudavam para as vizinhanças ou para o país. Mais uma vez, a terminologia vaga ajudou a esconder o que estava realmente acontecendo.
Terceiro, e mais triste, o Establishment científico tanto nos Estados Unidos quanto na Alemanha não protestou suficientemente. Muito pelo contrário. Na Alemanha os cientistas imediatamente apoiaram o programa. Os pesquisadores alemães modernos examinaram documentos nazistas da década de 1930. Esperavam encontrar diretrizes indicando aos cientistas o que deviam fazer. Mas nenhuma foi necessária. Nas palavras de Ute Deichman: «Os cientistas, incluindo os que não eram membros do partido [nazista], ajudaram a angariar fundos para seu trabalho modificando o próprio comportamento e cooperando diretamente com o Estado». Deichman fala do «papel ativo dos cientistas na política racista nazista… onde [a pesquisa] tinha como objetivo confirmar a doutrina racial… não há nenhuma pressão externa documentada». Os cientistas alemães ajustaram suas pesquisas ao novo plano de ação. E os poucos que não o fizeram desapareceram.
Outro exemplo: o caso Lysenko
Um segundo exemplo da ciência politizada tem caráter completamente diferente, mas exemplifica os riscos de uma ideologia de governo controlando o trabalho da ciência e de uma imprensa acrítica promovendo falsos conceitos. Trofim Denisovitch Lysenko era um camponês independente que, diziam, «resolveu o problema da fertilização do solo sem fertilizantes ou minerais». Em 1928 ele afirmou ter inventado um processo chamado vernalização, no qual as sementes eram umedecidas e esfriadas para intensificar o crescimento das plantações.
Os métodos de Lysenko jamais foram submetidos a um teste rigoroso, mas sua alegação de que suas sementes tratadas passavam suas características para a geração seguinte representou a ressurreição das idéias de Lamarck numa época em que o resto do mundo aceitava a genética mendeliana. Josef Stalin apreciava as idéias de Lamarck, que implicavam um futuro não limitado pelas restrições da hereditariedade. Ele queria também melhorar a produção agrícola. Lysenko prometia as duas coisas e se tornou a estrela da imprensa soviética que estava à procura de relatos de camponeses inteligentes que haviam desenvolvido processos revolucionários.
“Consenso político” afasta os testes científicos
Lysenko foi apresentado como um gênio e aproveitou-se plenamente da sua celebridade. Ele era especialmente hábil em denunciar seus oponentes. Usava os questionários de agricultores para provar que a vernalização aumentava a produção do campo, desse modo evitando qualquer teste direto. Levado por uma onda de entusiasmo promovida pelo Estado, sua ascensão foi rápida. Em 1937 ele tornou-se membro do Soviete Supremo.
A essa altura, Lysenko e suas teorias dominavam a biologia russa. O resultado foi a fome que matou milhões e os expurgos que levaram centenas de cientistas soviéticos dissidentes aos gulags ou aos pelotões de fuzilarnento. Lysenko era agressivo no seu ataque à genética, que finalmente foi proibida como “pseudociência burguesa” em 1948. As idéias de Lysenko nunca tiveram fundamentação, mesmo assim ele exerceu controle sobre as pesquisas soviéticas por 30 anos. Sua influência teve fim na década de 1960, mas a biologia russa ainda não se refez totalmente daquela era.
Novo “consenso”, novo perigo: aquecimento global & cia.
Agora estamos lidando com uma nova grande teoria, que outra vez atraiu o apoio de políticos, cientistas e celebridades do mundo todo. Mais uma vez, a pesquisa é promovida por grandes fundações. Mais uma vez, legislação é feita e programas sociais são incentivados em seu nome. Mais uma vez os críticos são poucos e tratados com rigor.
Mais uma vez, as medidas incentivadas têm pouca base nos fatos ou na ciência. Mais uma vez, grupos com outras agendas escondem-se atrás de um movimento que parece ter elevados princípios. Mais uma vez, afirmações de superioridade moral são usadas para justificar atos extremos. Mais uma vez o fato de algumas pessoas serem feridas é ignorado porque, segundo dizem, uma causa abstrata é maior do que qualquer conseqüência humana. Mais uma vez, termos vagos, como sustentabilidade e justiça geracional – termos sem definição precisa – são empregados a serviço de uma nova crise.
Não estou dizendo que o aquecimento global é o mesmo que eugenia. Mas as semelhanças não são superficiais. E afirmo que uma discussão aberta e franca sobre os dados, e os problemas, está sendo sufocada. Importantes revistas científicas saíram em defesa do aquecimento global em seus editoriais, o que, na minha opinião, não deveriam fazer. Nessas circunstâncias, qualquer cientista que tenha dúvidas compreende claramente que será mais prudente ficar calado.
Uma prova desse sufocamento é o fato de muitos dos que criticam, abertamente, o aquecimento global serem professores aposentados. Esses indivíduos não estão mais à procura de patrocínio e não precisam mais enfrentar os colegas, cuja aplicação do dinheiro doado e carreira possam ser prejudicados por suas críticas.
Na ciência, os velhos geralmente estão errados. Mas na política, os velhos são sábios, aconselham cautela e no fim, geralmente, estão certos.
A história das crenças humanas é uma lição de advertência. Matamos milhares de seres humanos porque acreditávamos que tinham feito pacto com o demônio e se tornado feiticeiros. Ainda matamos mais de 1.000 pessoas por ano por praticarem feitiçaria. Na minha opinião, só há uma esperança para a humanidade sair do que Carl Sagan chamou de um «mundo assombrado por demônios» do nosso passado. A esperança é a ciência.
Porém, como diz Alston Chase, «quando a procura da verdade se confunde com interesses políticos, a procura do conhecimento se reduz à busca pelo poder».
Esse é o perigo que enfrentamos agora. E é por isso que a combinação de ciência com política é uma péssima combinação, com uma péssima história. Devemos nos lembrar da história para nos certificarmos de que aquilo que apresentamos ao mundo como conhecimento seja algo desinteressado e honesto.![]()
Michael Crichton
Os livros a ler são: «Estado de Medo», romance de Michael Crichton (Editora Rocco Ltda., RJ); e «O Mundo Assombrado pelos Demônios», de Carl Sagan (Companhia das Letras, SP).
Imagem: Husc
Que ótimo Texto.
Realmente, a mistura entre política e ciência é perigosa.
Eu sou um simpatisante do movimento ambientalista e mesmo que haja algumas críticas contra as pessoas que acreditam que o mundo está prestes a enfrentar alguma crise provocada pelo efeito estufa, não há como negar que a espécie humana está interferindo, de maneira negativa, no meio ambiente.
Caro Felipe:
Estude melhor o movimento ambientalista e verá que de ambientalismo ele não tem nada. Leia os outros posts deste blog, principalmente os livros indicados. O mundo não está prestes a enfrentar crise nenhuma, e a interferência humana no aquecimento global, seguramente, é a última coisa a se considerar. Pior: achar que com algumas pequenas providências, a formiguinha humana poderá deter os efeitos do elefante Sol, pois sua influência sobre o clima da terra é um fato, isso sim, é preocupante.
E lembre-se: qualquer atitude contra a Humanidade é, simplesmente, imoral.
Informe-se mais.
Saúde, vida longa e sabedoria.
Husc