Primakov: “Rússia pagou mais pelo fim da URSS que pela II Guerra Mundial”

Os desdobramentos do desmantelamento da União Soviética cobraram à Federação Russa um preço mais alto do que a II Guerra Mundial. A afirmativa não veio de um pesquisador afastado dos acontecimentos, mas de um altíssimo insider da estrutura política do país, o ex-premier Evgeny Primakov, em entrevista divulgada pela rede de televisão Russia Today, em 26 de dezembro último.

Para Primakov, que considera que as principais ameaças à economia russa provêm dos neoliberais, oligarcas e os que querem criar uma “sociedade administrativa de mercado”, afirmou que esse custo se deveu, em grande medida, à brutal privatização do patrimônio do Estado. Em suas palavras:

«O preço foi tremendo. Em termos econômicos, a Rússia pagou mais caro pelo fim da URSS, que durante toda a II Guerra Mundial. O custo alcançou essa escala. Tremendo. Todos veríamos mais claramente o que a Rússia pagou pelo fim da URSS, se todos pudessem assistir às audiências, em Londres, dos processos em curso, aos quais respondem [os oligarcas exilados] Boris Berezovsky e Roman Abramovich, e se todos ouvissem as histórias horrendas de como os empresários gozavam da proteção de funcionários do Kremlin. Ou se todos conhecêssemos os detalhes dos processos de privatização, na Rússia. Se se sabe daqueles crimes, ninguém, em sã consciência, jamais dirá que o país obteve qualquer ganho, qualquer avanço, do que se fez nos anos 90.»

Primakov afirmou que, em lugar de dissolver a URSS, dever-se-ia ter estabelecido um tratado que criasse um espaço econômico semelhante ao processo de integração da Europa e ao que a América Latina tenta fazer. Com isto, “acho que teríamos dado o passo oportuno e necessário, naquele momento, na direção de preservar uma União Soviética aprimorada, modernizada, que, adiante, teria os meios necessários para livrar-se das partes necrosadas do seu próprio legado”.

Segundo ele, não teria sido necessário usar a força militar para a preservação da URSS. Bastaria, afirmou, ter prendido “aqueles três políticos na Floresta de Belovezhskaya, que lá estavam, bêbados, mal se segurando sobre as pernas, e que só pensavam em assinar logo os documentos daquele tratado, e, simplesmente, tê-los levado, no camburão, cada um para sua casa. Bastaria prendê-los, tirá-los de lá, apreender aqueles documentos e levar os bêbados para casa”.

Primakov se refere aos presidentes da Rússia, Boris Yeltsin, Ucrânia, Leonid Kravchuk, e Bielo-Rússia, Stanislau Shushkevich, signatários dos Acordos de Belavezha, que determinaram o fim da URSS e a criação da Comunidade dos Estados Independentes (CEI), em dezembro de 1991.
Na ocasião, Mikhail Gorbatchov era presidente da URSS e, segundo Primakov, se opôs à proposta de criação de uma zona econômica comum. “Muitos estavam já convencidos disso e dispostos a trabalhar nessa direção. Até os estados do Báltico estavam dispostos a trabalhar sobre a ideia de preservar um espaço econômico comum”, afirmou.

Primakov diz que a zona econômica não teria sido suficiente para evitar a fragmentação da URSS. Porém, “mesmo hoje, já se vê a importância de criar uma zona econômica comum. Se a coisa é feita adequadamente, na escala adequadamente ampla – e, de fato, a Rússia já tem acordos com a Bielorrússia e com o Cazaquistão e é possível que o Quirguistão logo se una, também -, se tudo for conduzido adequadamente, o que se está vendo é que a formação de blocos econômicos – não a dissolução dos blocos existentes – é um dos pilares indispensáveis à segurança e ao desenvolvimento locais”.

Segundo ele, a atual proposta do premier Vladimir Putin para a criação de uma Comunidade Econômica Eurasiática não é uma tentativa de reviver a URSS sob nova roupagem:

«Não penso, de modo algum, em alguma coisa semelhante à União Soviética. Nada mais, hoje, pode, sequer remotamente, ser semelhante à União Soviética, de modo algum. Mas a integração é uma das forças mais ativas da globalização. Isso, precisamente, é o que se vê hoje, em todo o mundo. E se nos pusermos a andar a favor dessas forças… Hoje, pode-se dizer que o que se vê em todo o mundo é a tendência à transnacionalização nos negócios e no comércio. E também há transnacionalização e integração dos processos no plano dos estados. Portanto, se conseguirmos andar a favor dessas tendências, para chegar aos fóruns planetários, para promover neles nossa agenda… A verdade é que esse tipo de movimento em nada difere do que o Ocidente está fazendo! A vantagem, no nosso caso, é que nós, desse lado do mundo, sempre teremos de nos focar mais nos interesses de cada um dos estados-membros da Comunidade Econômica Eurasiática. Acho que essa será uma grande vantagem.»

O ex-premier concluiu dizendo que ainda falta à Rússia uma linha de pensamento própria para a sua inserção no mundo: “Ainda não há, articulada, coisa alguma que se aproxime do que se chama ‘ideia nacional’. Estamos todos trabalhando para melhorar a vida das pessoas, para que tenham vida melhor, mais segura. A situação demográfica precisa de atenção. O modelo econômico precisa de reforma geral, porque o que havia antes da crise de 2008 não servirá para o futuro. Esses desafios são evidentes. E todos eles, tomados em conjunto, manifestam a ideia nacional da Rússia.”

 Movimento de Solidariedade Íbero-americana

Créditos este post é matéria apresentada no Boletim Eletrônico MSIa INFORMA, do MSIa – Movimento de Solidariedade Íbero-americana, Vol. III, No 33, de 12 de janeiro de 2012.

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